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 José Carreiro
 
aguiarcarreiro@gmail.com

 

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       Miguel TorGA

 

 

 

 

Índice    (para consulta, clique nas ligações internas e externas abaixo indicadas)

 

I. Miguel Torga e o Segundo Modernismo (grupo da Presença)

II. Miguel Torga - vida e obra

1. Notas biográficas

2. A dimensão poética torguiana: perfil literário e estilístico
    - o sentimento telúrico
    - a problemática religiosa
    - o desespero humanista
    - o drama da criação poética

3. A Criação do Mundo (1937-1981)
    -
Prefácio de Miguel Torga, em 1984
    - Uma leitura de A Criação do Mundo
   
- Plano de leitura orientada

 

 

 

 

 

Miguel Torga e o Segundo Modernismo (Grupo da Presença)

 

Em 1927, nasce, em Coimbra, a revista Presença, associando-se este evento ao segundo Modernismo.

Foi, sem dúvida, a revista Presença que serviu de veículo transmissor dos ideais modernistas, não sendo, por isso, de estranhar que nela fossem publicados poemas de Fernando Pessoa e dos seus heterónimos.

Mas Casais Monteiro insiste nas diferenças existentes entre Orpheu e Presença, destacando o facto de esta segunda geração se preocupar em revelar a literatura anterior"... e, em vez de reivindicar louros para si, pede-os, exige-os para as grandes figuras que tinham criado, por altura da Primeira Guerra Mundial, uma nova visão da literatura, e aberto novos horizontes aos seus meios de expressão". Escolhe a originalidade, a sinceridade e a personalidade e rejeita o lado excêntrico e intelectual do primeiro Modernismo, considerando-o uma arte independente de modas e flutuações de gosto.

A sensibilidade presencista liga-se à afirmação pessoal do poeta e percorre autores muito diversos.

Esta revista assume uma vertente crítica e disciplinadora (sobrepondo-se esta à inovadora), sob a pena de José Régio, João Gaspar Simões, Adolfo Casais Monteiro, e muitos outros colaboradores, com especial destaque para Branquinho da Fonseca e Miguel Torga.

Convém salientar que Torga rompe cedo com o movimento presencista por considerar que os seus companheiros viviam afastados da realidade, por se acharem diferentes do homem comum.

Após o rompimento com a Presença, onde contribui literariamente com o seu nome verdadeiro – Adolfo Correia da Rocha –, começa a assinar os seus poemas com o pseudónimo Miguel Torga, justificando o primeiro nome como homenagem ao poeta espanhol Miguel de Unamuno e o segundo (Torga) como forma de estabelecer ligação com a sua terra natal, dado que este é o nome de um arbusto abundante em Trás-os-Montes. (Peixoto: 2001, 94)

 

 

Notas biográficas

 

Miguel Torga é o pseudónimo literário de Adolfo Correia da Rocha, nascido em S. Martinho de Anta (Trás-os-Montes), em 1907. Tem uma infância dura, durante a qual recebe do pai, pobre caseiro, um carácter rígido e inflexível, e da mãe, criada de servir, a sensibilidade que o tornará poeta.

Após a instrução primária, vai servir para o Porto. Como não se adapta, ingressa, em 1918, no seminário de Lamego, aconselhado pelo prior de Paradela.

Dado o seu carácter rebelde e a sua ânsia de liberdade, sai desse estabelecimento eclesiástico ao fim de dois anos e embarca para o Brasil, em 1920, onde é acolhido por um tio e onde trabalha arduamente como capinador, apanhador de café, vaqueiro e caçador de cobras. teve uma vida muito difícil até aos 16 anos.

Entretanto, o tio apercebe-se das capacidades do jovem e prontifica-se a custear-lhe os estudos, primeiro no colégio do Ribeirão e, mais tarde, em Portugal, aonde regressa em 1925. Completa em três anos o curso liceal (que normalmente levava sete) e aos 20 anos é admitido na Universidade de Coimbra, onde inicia o curso de medicina, que termina aos 24 anos.

Começa a exercer como médico rural em S. Martinho de Anta. Transfere-se para Leiria em 1937. Para poder ter acesso às tipografias e livrarias, fixa-se em Coimbra, depois de se ter especializado em otorrinolaringologia.

Casa com a lusófila Andrée Crabbé, professora da Faculdade de letras da Universidade Clássica de Lisboa, de quem tem uma filha, Clara Crabbé Rocha, também professora universitária.

Entre Dezembro de 1939 e Fevereiro de 1940, esteve preso nas cadeias de Leiria e no Aljube e, embora tivesse pensado abandonar o país, não o fez devido ao amor que sentia pela terra-mãe, aliás bem visível na sua obra.

Reparte a sua vida entre a medicina e a escrita, sendo esta última a sua paixão, e morre em Coimbra a 17 de Janeiro de 1995. (Peixoto: 2001, 95)

 

“Registo de Adolfo [Correia] Rocha, de pseudónimo Miguel Torga” http://digitarq.dgarq.gov.pt/details?id=4299532
pertencente ao fundo “PIDE”
http://digitarq.dgarq.gov.pt/details?id=4279956 do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

 

 

Dimensão poética torguiana: perfil literário e artístico

 

Torga é um escritor que se situa no concreto e que está ligado ao húmus[1] natal. A sua obra é ele e a natureza, ele e Portugal.

O seu estilo poético é de uma eloquência sóbria[2], viril[3], que ou aquece de entusiasmo, ou fustiga[4]. Pela escolha das palavras, manifesta uma inspiração genesíaca[5]: sexo, cio, sémen, seiva, fecundar, germinar, parir, etc., juntando-lhe o delírio sensual das invocações[6] báquicas[7]: o vinho, o mosto, o cacho. Em contraponto, existe outra zona de inspiração, que ele traduz por termos como sonho, ilusão, aventura, Deus, mito, lua, estrela, astral. O culto da liberdade, a ânsia de liberdade surge como permanente traço de união. É um lírico que fala de si, se exibe e reabilita Narciso[8] como o homem que se busca numa imagem inteira. No entanto, a presença dos outros é condição de plenitude, mas também de incompreensão, de isolamento forçado, motivo de ressentimento e de amargura, visíveis nos onze volumes do Diário. Em Torga temos a sede de fraternidade, o lamento por não ter sabido amar ou por o amigo se lhe haver negado. É o impulso afectivo para o outro que faz dele o poeta da comunidade. Torga é simultaneamente o poeta da angústia e o poeta da esperança. Angústia provocada pela ausência de Deus ou do divino nos homens, pelas mortes. A esperança é a resposta da vida que em nós continua a latejar. Por isso, o humanismo[9] de Torga consiste numa lição de juventude. O poeta denuncia, ilumina, constrói.

O que há de invulgar em Miguel Torga é o facto de ele se apresentar, quer como poeta quer como prosador, como um ser inconfundível, um telúrico[10] padrão e um expoente da Pátria, um artista da língua em que se exprime, um legatário[11] de valores culturais, um receptor atento e um transmissor dos inúmeros problemas do Homem. Torga tem todo o seu ser e toda a sua obra firmados no solo onde se consubstanciam.

Torga é considerado a voz de Trás-os-Montes e a voz de um povo rude e melancólico, mas de carácter firme e nobre. Mostra-se preocupado com a autenticidade criadora, projectando na sua escrita as suas preocupações com o ser humano, a sua necessidade de transcendência. É visível, na sua obra, um sofrimento magoado, que se transforma em desassossego, e que tanto permite a esperança como conduz ao desespero. (Peixoto: 2001, 95-96)

A poesia de Miguel Torga apresenta essencialmente quatro linhas orientadoras: um sentimento telúrico; uma problemática religiosa; um desespero humanista; o drama da criação poética. Convém ter presente que estas linhas temáticas podem coexistir num texto. O importante é conhecê-las na sua globalidade para que se possam compreender muitos dos textos poéticos torguianos.

A nível estilístico, Torga opta pelo uso de estrofes irregulares e deita mão a uma diversidade de recursos, que passam pela escolha criteriosa de verbos e tempos verbais, por figuras de estilo como a antítese, a metáfora, a adjectivação, e um conjunto diversificado de estratégias que lhe permitem expressar o que realmente lhe vai na alma.


 
[1] produto que resulta da decomposição dos vegetais e animais que se acumula no solo e constitui fonte de matéria orgânica. Em Torga, é aquilo que diz respeito à terra.
[2] simples e correcta.
[3] enérgico, vigoroso.
[4] castiga, maltrata.
[5] que está na génese, na origem, neste caso na terra-mãe, onde tudo se gera.
[6] chamamento para se fazer um ou mais pedidos; súplica. No contexto, significa que são chamadas, invocadas para a sua poesia.
[7] que diz respeito a Baco, deus do vinho.
[8] deus da antiguidade que era extremamente vaidoso e que se enamorou de si próprio.
[9] Humanismo - no contexto torguiano, significa que se preocupa com as in­justiças e visa eliminá-las.
[10] Telúrico/telurismo - relativo à terra, ao solo. Influência do solo de uma região nos costumes, no carácter.
[11] Aquele a quem se deixou um legado, isto é, um valor, que pode ser uma qualquer herança.

 

 

O sentimento telúrico

 

Segundo Torga, o Homem deve ser capaz de realizar-se no mundo. Deve unir-se à terra, ser-lhe fiel, para que a vida tenha sentido e o sagrado se exprima.

É na terra que a vida acontece e é que se deve cumprir. É nela que está a origem da vida e dos tempos. Por isso, a terra surge, em Torga, como um ventre materno e a tarefa do Homem é orientar-se para esse sentido criador, genesíaco.

O telurismo de Torga exprime-se no seu apego à terra, na sua fidelidade ao povo, na sua consciência de ser português. Mas o poeta não se contenta em elogiar a terra, na medida em que sente a condição humana cheia de limitações.

De qualquer modo, o sentimento telúrico presente na sua obra revela bem a ligação entre o espírito genesíaco e o sentido do sagrado. O seu apego à terra-mãe surge em vários poemas, nomeadamente em "Terra", onde esta é personificada numa mulher disposta à fecundação, ou em "S. Leonardo de Galafura", testemunho perfeito do amor telúrico do poeta que em Diário II afirma: "[...] devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo. Os homens me deram tristezas [...] a terra, com os seus vestidos e as suas pregas, essa foi sempre generosa. [...] Vivo a natureza integrado nela, de tal modo que chego a sentir-me, em certas ocasiões, pedra, orvalho, flor ou nevoeiro. Nenhum outro espectáculo mesemelhante plenitude e cria no meu espírito um sentido tão acabado do perfeito e do eterno".

E o seu apego à terra fá-lo evocar o mito de Anteu[1] e declarar, em Diário XI, que: "De todos os mitos de que tenho notícia, é o de Anteu que mais admiro e mais vezes ponho à prova, sem me esquecer, evidentemente, de deduzir o tamanho do gigante à escala humana, e o corpo divino da Terra olímpica[2] ao chão natural de Trás-os-Montes. [...] Sempre que, prestes a sucumbir ao morbo do desalento, toco uma destas fragas, todas as energias perdidas começam de novo a correr-me nas veias. É como se recebesse instantaneamente uma transfusão de seiva. Sei, contudo, que o prodígio não aconteceria sem a força amorosa do meu apelo, que as virtudes terapêuticas da fonte estão também na certeza da sede de quem bebe".

Note-se que no período final desta declaração torguiana está patenteada a crença de alguém que muito ama a terra e nela a cura para os seus males, principalmente porque acredita no seu poder terapêutico. (Peixoto: 2001, 97)


 

[1] Figura da mitologia grega e romana, filho da deusa Terra, onde ia buscar forças para derrotar todos quantos se aproximassem da costa líbia. Foi derrotado por Hércules, que, tendo descoberto a origem da sua valentia, o ergueu do chão, durante uma luta, impedindo, deste modo, que este sugasse a energia que o alimentava.
[2] relativo a Olimpo, local onde habitam as divindades pagãs.

 

 

 
  
 
 
 
 
 
5
 
 
 
 
 
10
 
 
REGRESSO
  
Regresso às fragas de onde me roubaram.
Ah! minha serra, minha dura infância!
Como os rijos carvalhos me acenaram,
Mal eu surgi, cansado, na distância!
 
Cantava cada fonte à sua porta:
O poeta voltou!
Atrás ia ficando a terra morta
Dos versos que o desterro esfarelou.
 
Depois o céu abriu-se num sorriso,
E eu deitei-me no colo dos penedos
A contar aventuras e segredos
Aos deuses do meu velho paraíso.
 
(Diário VI)

 

Sentimentos dominantes do sujeito poético:

Cansado (v.4)

Alegre, feliz, satisfeito, eufórico.

 

Relação entre poeta e natureza é de intimidade e de afectividade.

 

Donde a importância do campo lexical que se refere à terra:

A quantidade e variedade de vocábulos e expressões que descrevem a terra tornam esse o campo lexical mais importante do texto, quase saturando o discurso poético. Assim:

-          as referências directas são "fragas", "minha serra", "terra morta", «colo dos penedos";

-          há outras referências: metonímica – "minha dura infância"; metafórica – «meu velho paraíso";

-          as referências "rijos carvalhos" e "cada fonte" indicam, por sua vez, realidades indissociáveis da terra.

Donde o simbolismo metafórico dos elementos naturais, como:

-          o carvalho (Dic. dos Símbolos), instrumento de comunicação entre a terra (os homens) e o céu (Deus);

-          a fonte, símbolo de maternidade, nas culturas tradicionais é a origem da vida, do renascimento, do poder e da felicidade.

 

Assim sendo, o regresso à terra-mãe equivale à recuperação de forças, fazendo-o feliz, satisfeito como se estivesse no paraíso. A sua terra é o seu céu (terra como expressão de céu).

 

Tal como Anteu que recebia energia e forças da sua mãe terra, assim é o poeta que ao contactar com a sua terra restabelece a sua força anímica.

 

Modos pelos quais o Eu alude à sua infância:

-          As fragas "de onde me roubaram" (v.1) são metonímias da infância do Eu, como o segundo verso confirma "Ah! minha serra, minha dura infância";

-          o aceno dos carvalhos metaforiza o reviver da infância que este regresso proporciona ao Eu;

-          o sorriso aberto do céu (cf. v. 9) e o "colo doa penedos" (v. 10), por sua vez, metaforizam a dimensão maternal da terradimensão que se harmoniza com a temática da infância;

-          "dura infância" (v. 2), no entanto, remete para um aspecto menos agradável da rememoração.

 

Traços que definem esse Eu como poeta

Este Eu que regressa é caracterizado como poeta:

-          primeiro, por intermédio da personificação de "cada fonte", que canta "O poeta voltou" (v. 6);

-          depois, também na segunda estrofe (vv. 8-9), pela referência aos "versos" esfarelados sobre "a terra morta", assim definida como aquela que, não sendo a terra natal, é, pois, o "desterro";

-          finalmente, a própria actividade a que o Eu se entrega quando regressa ao seu "paraíso" (v. 12), o "contar aventuras e segredos" (v. 11), é uma actividade que envolve palavras, comunicação verbal, o que vem amplificar a imagem de poeta que nele a serra reconhece.

 

Reflexos no plano morfossintáctico:

-          adjectivação utilizada (rijos, cansado, morta, velho) serve para reforçar a ideia de austeridade da vida;

-          tipo de frase exclamativo nos versos 2-6 a demonstrar o gosto na chegada do sujeito poético à sua terra;

-          tipo de frase declarativo no resto do poema a demonstrar com mais calma o que foi fazer.

Reflexos no plano semântico:

-          personificação dos carvalhos e das fontes para dar conta do bem estar do sujeito poético na sua terra (vv. 3 e 5);

-          repetição do pronome possessivo «minha» a reforçar o apego do sujeito poético à sua terra de origem e o facto de não se importar de dizer que aquele espaço é seu por natureza.

Reflexos no plano fónico:

-          assonância do som nasal nos primeiros cinco versos condizente com um primeiro momento ainda cansado;

-          aliteração fonema /t/ (vv. 5-8) a cadenciar a frase ao gozo e entusiasmo que a visão da terra proporciona;

-          assonância de sons semi-abertos /i/ e /e/ em harmonia com o som fechado /o/ a traduzir uma relaxação feliz no acto de invocar coisas da terra.

Integração no universo poético de Miguel Torga:

A poesia da Miguel Torga está ligada ao canto da terra dura e bravia (que, aliás, se associa, na biografia do autor, a Trás-os-Montes) e dos seus valores de Integridade, sobriedade e grandeza.

Assim, este poema remete para veios temáticos importantes em Miguel Torga, como:
     -
o canto das coisas elementares;
     - a religiosidade própria do sentimento telúrico;
     - a apologia da terra firme e das raízes que nela se cravam;
     -  o canto do mundo agrário, da experiência da pobreza e do esforço.

 

(Veríssimo: 1999b, 57; GAVE: 1999, 134 – 1ªf. 2ªch.)

 

 

 

 
 
S. LEONARDO DE GALAFURA1
 
A proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto2,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.
 
não terá socalcos3
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.
 
Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo4 avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo5 a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho6!
 
Diário IX, 1964.
 1 S. Leonardo de Galafura é uma capelinha que existe no alto da montanha, na freguesia com o mesmo nome, no concelho da Régua (Vila Real). Vista do sopé da montanha, dá a imagem de navegar no espaço.
 
2  mostosumo da uva antes de se completar a fermentação.
 

 

 

 

 

3 socalco – espécie de degrau nas encostas, suportado por um muro, para se cultivar. Na região do Alto Douro é em socalcos que se cultiva a vinha.
 

 

 

 

 

 

4  rabelo – embarcação típica, usada no rio Douro para transporte do vinho do Porto, que tem por leme um remo muito comprido e grosso.
 
5 sorvogole; trago; sorverabsorver; aspirar.
 
6 rosmaninho – planta aromática, de flores violáceas designada por alecrim.

 

 

1.        S. Leonardo navega em direcção ao cais divino.

1.1.   Que meio de transporte utiliza?

1.2.   Como é caracterizado o espaço que tem de percorrer?

1.3.   Porque é que não vai muito satisfeito, sendo santo?

2.        O poema revela uma estrutura circular. Distinga as partes lógicas em que está estruturado e indique o assunto de cada uma.

3.        Para exprimir de forma artística a viagem, foram utilizados muitos recursos expressivos. Destaque:

3.1.   a forma como a construção das estrofes sugere a irregularidade do espaço a percorrer;

3.2.   a expressividade da alternância de vogais abertas e fechadas, bem como das aliterações;

3.3.   o valor do aspecto verbal;

3.4.   o domínio da coordenação;

3.5.   a importância das metáforas «navio de penedos», «doce mar de mosto», «ondas/Da eternidade», «cais humano», «cais divino», «charcos de luz», «Rasos, todos os montes».

4.        O texto é uma alegoria.

4.1.   Que se pretende enaltecer?

4.2.   É este um texto telúrico? Justifique.

(Guerra: 1999, 398)

 

 

A problemática religiosa

 

A revolta da inocência humana contra a transcendência

Esta problemática assume em Torga uma dinâmica especial e revela-se, por vezes, ambígua e contraditória. Com efeito, Torga parte da sua experiência para interrogar Deus, palavra onde reside a ambiguidade da sua poesia. É que Torga revolta-se contra Deus, mas não se assume como ateu[1]. A negação surge porque lhe perturba a razão e porque pretende afirmar o homem. Frequentemente, negar Deus é negar a representação que Dele fazemos, como aliás o próprio poeta confirma, ao declarar em Diário III: " por mim concebo Deus dos aflitos, à porta de quem se bate com a angústia de alguém que chama o médico".

A ausência de um Deus mais humano e imanente[2] é o que realmente perturba o poeta. Por isso, prefere questionar a verdade de Deus para afirmar o Homem e a necessidade de este procurar a verdade na Terra.

Como médico, sofre, muitas vezes, por não salvar o paciente que morre, mas que procurara a esperança do milagre que Deus lhe poderia ter concedido.

Por sentir constantemente as provações da vida, própria e alheia, é que Torga entra em conflito interior, causando-lhe o desespero religioso que o leva a um constante monólogo[3] com Deus, palavra que assume como obsessão[4]. Sente que precisa de Deus, mas as suas conclusões racionalistas tornam-no inatingível.

Esperança e desesperança surgem como expressão de um conflito íntimo, bem patente no poema "Desfecho", onde o poeta tenta negar a divindade, mas sente a sua existência. A descrença e a revolta contra um Deus transcendente reflectem a angústia do poeta que tenta valorizar o Homem e a Terra e, simultaneamente, a revolta da inocência humana contra a divindade transcendente. (Peixoto: 2001, 98)


 

[1] aquele que não acredita em Deus.
[2] que é inseparável, existe dentro dele e está sempre presente.
[3] acto de fala consigo próprio.
[4] preocupação com determinada ideia que domina o espírito; ideia fixa.

 

 

 

 
 
 
 
 
 
5
 
 
 
 
 
10
 
 
 
 
 
15
 
 
 
 
20
 
LIVRO DE HORAS
 
Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão ao leme da nau
Nesta deriva em que vou.
 
Me confesso
Possesso
Das virtudes teologais,
Que são três,
E dos pecados mortais,
Que são sete,
Quando a terra não repete
Que são mais.
 
Me confesso
O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
E o das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.
 
 
 
 
25
 
 
 
 
 
30
 
 
 
 
 
35
 
 
 
 
 
40
 
 
Me confesso de ser charco
E luar de charco, é mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.
 
Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
Desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.
 
Me confesso de ser Homem.
De ser um anjo caído
Do tal céu que Deus governa;
De ser um monstro saído
Do buraco mais fundo da caverna.
 
Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!
 
                                   O Outro Livro de Job, 1936

  

Referências bíblico-religiosoas:

 Abel – Segundo filho de Adão e Eva (Antigo Testamento). Como era pastor, decidiu oferecer a Deus as primeiras crias do seu rebanho e as suas respectivas gorduras, oferta que foi melhor aceite por Ele do que os frutos da terra oferecidos pelo seu irmão Caim. Dominado pela inveja, Caim matou Abel...

Caim – Primeiro filho de Adão e Eva (Antigo Testamento). Movido pelo ciúme, assassinou o irmão, Abel, pelo facto do sacrifício deste ter sido melhor aceite por Deus do que o seu

Job – (c. século V a.C) No Antigo Testamento, líder hebreu que, no Livro de Job, questionou o sofrimento que Deus infligia aos justos enquanto ele próprio era sujeito a grandes padecimentos

Livro de Horaslivro de devoções privadas segundo um esquema: começam com um calendário elaborado exclusivamente em função das festas religiosas. Seguem-se numerosas preces. Estas, compostas em grande parte de salmos, seguem o ritmo quotidiano — as matinas, laudas, prima, tércia, sexta e noa, as vésperas e as completas escalonam o dia.

 

Estrutura externa: poema constituído por 7 estrofes de tamanho irregular, métrica muito variável e, no aspecto vocálico, alternando o verso livre com rimas consoante e vocálica. É um texto com um ritmo interior vigoroso e um hábil aproveitamento  das sonoridades que conduzem a uma fortíssima afirmação da subjectividade.

 

Tema: reconhecimento da divisão interior do Eu.

É um tema dilacerante para os homens do Orpheu e muito recorrente na poesia da Presença, movimento que Torga esteve ligado até 1930.

 

1.       Atente no conteúdo do poema.

1.1.   Estabeleça uma relação entre o título do poema, o da obra em que foi publicado e o tipo de discurso utilizado.

2.       Focalize a sua atenção na linguagem.

2.1.   Justifique o tempo verbal predominante.

2.2.   Demonstre a expressividade da progressão textual quanto aos tipos de frases utilizados.

3.       Atente nos versos 2 e 3: «Eu, pecador, me confesso / De ser assim como sou.»

3.1.   Indique a razão para a utilização das vírgulas no verso 2.

3.2.   Demonstre a funcionalidade do termo «assim» na construção do poema.

4.       Faça o levantamento de marcas textuais próprias de um tom confessional.

5.       A composição poéticaconta da expressão de um «eu» onde coexistem duas dimensões: uma positiva e outra negativa.

5.1 Proceda ao levantamento de exemplos textuais reveladores dessa oposição.

 

(Cardoso: 2003, 216)

 

 

 
 
 
 
 
 
5
 
 
 
 
 
10
 
 
 
 
 
15
 
 
 
 
 
20
DESFECHO
 
Não tenho mais palavras.
Gastei-as a negar-te...
( a negar-te eu pude combater
O terror de te ver
Em toda a parte.)
 
Fosse qual fosse o chão da caminhada,
Era certa a meu lado
A divina presença impertinente
Do teu vulto calado
E paciente...
 
E lutei, como luta um solitário
Quando alguém lhe perturba a solidão.
Fechado num ouriço de recusas,
Soltei a voz, arma que tu não usas,
Sempre silencioso na agressão.
 
Mas o tempo moeu na sua
O joio amargo do que te dizia...
Agora somos dois obstinados,
Mudos e malogrados,
Que apenas vão a par na teimosia.
 
                                                     Câmara Ardente (1962)
 

 

Poema constituído por quatro quintilhas, sendo as duas primeiras de métrica muito irregular e a terceira e quarta decassilábicas, com excepção do penúltimo verso que é um hexassílabo  

No aspecto rimático há, em todas as estrofes, um primeiro verso solto, embora, no caso da primeira e segunda estrofes, se possa falar de rima toante em "a" com o segundo verso. Os restantes versos são emparelhados, cruzados ou interpolados, segundo o esquema rimático ABCCB / DEFEF / GHIIH / JKLLK.

O título do poema indicia claramente uma luta de que se prevê um desenlace

Os dois contendores (adversários) são:

O sujeito líricocaracterizado como combativo (v. 3), ruidoso (v. 14), aborrecido com a presença do «tu» (v. 12).

O «tu» – omnipresente, importuno (v. 8) e silencioso (v. 9). 

Nesse combate (vv. 3, 11) o «eu» usa como arma a palavra (v. 1) enquanto o «tu» utiliza o silêncio (vv. 9, 15). 

O desenlace consiste na obstinação de ambos (v. 18); o «eu» acaba por seguir o método do «tu»: o silêncio (v. 19, «mudos»). 

A luta é um processo, um percurso que se torna visível no poema, estruturado nas seguinte partes lógicas:

 

1ª parte
estrofes I e II
em que se definem uma temática religiosa
e uma situação de luta,
se identificam os contendores em situação de luta – o Eu, que passou a vida a negar Deus
e se antecipa o resultadodesfecho»): «não tenho mais palavras».
2ª parte
estrofe III
em que se apresentam os processos (instrumentos) de luta utilizados pelo Eu contra a presença «impertinente» (incómoda) e agressivamente calada de Deus: a recusa e o grito.
3ª parte
estrofe IV
Conclusão em que se descrevem os resultados desse combate: o tempo passou e digeriu a amargura dos gritos do Eu, reduziu-o ao silêncio, ficou mudo como o seu adversário. E agora são dois frustrados, ambos teimosos. Nenhum convenceu o outro.
Como que regressamos ao primeiro verso – «Não tenho mais palavras» – e compreendemos a propriedade do título.

 

As palavras («E», «Mas» – conjunções copulativa e adversativa) estabelecem a ligação entre as partes lógicas.

 

A nível do discurso, destaca-se: 

         a riqueza das sonoridades: 

Aliteração do fonema /t/ ao longo do texto: sugestão de intensidade da luta;
 Aliteração do fonema /m/ nos versos  16-17 e 19: sugestão, respectivamente, de amargura da impotência do «eu» para vencer o «tu» e a frustração de que de ambos se apodera.
 Os sucessivos transportes nas 1ª e 2ª estrofes: ritmo vivo.
 A tonalidade nasal: tristeza da impossibilidade de vitória.

 –         A expressividade da adjectivação: os adjectivos revelam a atitude do «tu» e o malogro (frustração) de ambos (impertinente, calado, paciente, fechado, silencioso, amargo, obstinados, mudos, malogrados). 

         O léxico ligado à intransigência (obstinados, teimosia), dureza (combater, lutei) e negatividade (negar-te, mudos, malogrados). 

         Comparação: E lutei como luta um solitário / Quando alguém lhe perturba a solidão. 

         Metáforas:

gastei-as (v. 5) (as palavras não se gastam);
o chão da caminhada (v. 6) = todos os locais;
soltei a voz = gritei;
arma (v. 14) = instrumento de combate.
agressão (v. 15)

         Imagens:

Fechado num ouriço de recusas (v. 13) = recusa total de ceder;
o tempo moeu na sua / O joio amargo = o tempo destruiu as suas palavras.

 

Em síntese, o sentido do título aponta para uma longa luta entre o imanente[1] e o transcendente com o desenlace do silêncio. Miguel Torga recusa-se a aceitar o Deus tradicional, numa atitude de rebeldia que caracteriza toda a sua obra literária.

 

(Guerra: 1999, 393-394; O Movimento «Presença» – Miguel Torga e José Régio, Ed. Sebenta)

 

«[...] Deus não nos , Deus não nos ouve. Deus não nos conhece. Deus é o silêncio, Deus é a ausência, Deus é a solidão dos homens. O homem está sozinho. E é sozinho que decide o mal ou inventa o bem. Não existe autoridade superior ou absoluto algum perante os quais o homem deva ou possa justificar-se. Que ganha o homem em troco da negação de Deus? A sua identidade e autonomia, mas de maneira nenhuma uma vida mais fácil. A partir de agora tem de assumir a responsabilidade de tudo. O homem não pode esperar mais pontos de apoio situados fora da sua própria pessoa. A sua existência não depende de ninguém. Resta-lhe o imperativo da liberdade para a construir.» (Fernão de Magalhães Gonçalves, Ser e Ler Torga)


 

[1] que não desaparece; que existe sempre; inerente; perdurável; fixo; privativo de um  sujeito ou de um objecto; o que é interior a um ser ou a um objecto do pensamento;  diz-se da descrição e da análise de um objecto ou de um fenómeno que não utilizam  factores transcendentes a esse objecto ou a esse fenómeno.

 

 

O desespero humanista

 

Um dos aspectos mais significativos da temática torguiana é o desespero humanista, que o poeta apresenta, algumas vezes, sob a forma de protesto, de revolta e de inconformismo.

Na sua condição de artista, Torga vive inquieto com a vida humana, a existência, o destino, o sentido da morte, a condição terrena. Verdadeiramente humanista, problematiza a criação, as limitações do homem, que o existencialismo desenvolverá.

É frequente verificar-se que o desesperolugar à esperança, principalmente porque Torga, como poeta, é chamado a gritar a sua solidariedade humanista com todos os que são abandonados, competindo-lhe, a ele, lan­çar-lhes na alma a chama da esperança, uma espécie de luz que se acende na imensa noite.

Tal como se disse, a revolta e o inconformismo traduzem o desespero humanista torguiano, mas a liberdade e a esperança são valores que articulam o seu humanismo.

É nesta perspectiva que surge o aproveitamento do mito de Orfeu[1]. Torga compara a descida de Orfeu aos Infernos, para ir buscar Eurídice[2], com a descida que o próprio faz ao mais fundo de si, ao inferno do seu ser, onde enfrentou o medo, a vergonha e o assombro. Veja-se a propósito desta comparação o esquema que se segue:

   

 

Expressa, por vezes, o seu drama interior, todavia também revela a tristeza de não conseguir iluminar a sua poesia. Mas, quer numa quer noutra situação, Torga assume uma atitude de protesto, de rebeldia.

Em Orfeu Rebelde, por exemplo, a rebeldia do poeta é diferente da de Orfeu, pois não se trata da perda da amada, mas da revolta em "fúria", "como um possesso", contra a morte e a passagem inexorável[3] do tempo. Torga recusa a poesia lamecha[4] dos românticos ("rouxinóis") e recorre a uma expressão violenta, agressiva, para vencer aquilo que o instinto adivinha e o sujeito recusa. Não lhe interessa se o canto é "de terror ou de beleza"; ele assume-se, como os clássicos, como alguém que se defende e procura encontrar a eternidade na realização poética ("Canto, a ver se o meu canto compromete / A eternidade do meu sofrimento"),

Em A Criação do Mundo ("Sexto Dia"), Torga declara: "O contacto profissional com o sofrimento humano como que dava corpo físico à minha dolorosa consciência da grandeza trágica da nossa condição; a intimidade lúdica com a natureza restaurava, por sua vez, na acuidade activa dos sentidos, a certeza de que há na vida uma tenacidade intrínseca que, contrariando os desesperos da razão, é um permanente acto de na graça lustral da esperança."

O humanismo torguiano é um humanismo revolucionário, próprio de um revoltado, de um rebelde, e articula-se em dois valores importantíssimos: a liberdade e a esperança.

O poema Orfeu Rebelde exemplifica este humanismo de um revolucionário. Aliás, o mito de Orfeu é muito querido a Torga, por retratar a rebeldia de quem não aceita os limites que lhe são impostos.

Como poeta, Torga considera-se chamado a gritar a sua solidariedade humanista com todos os que são abandonados, competindo-lhe a ele lançar-lhes na alma a chama da esperança. O desespero surge para fazer nascer a esperança. (Peixoto: 2001, 98-100)


 

[1] Mito de Orfeu - está relacionado com a descida aos Infernos para recupe­rar Eurídice. Este deus da antiguidade era um excepcional poeta e músico que conseguiu com o seu canto obter autorização para ir buscar a sua amada, sob a condição de não olhar para ela enquanto não estivessem fora do reino dos mortos. Orfeu não resistiu e, por isso, esta desapareceu sem que tivessem chegado ao portão. Então, a mágoa de Orfeu era traduzida pelas melodias tristes que este tocava quando passeava pelas florestas. Um dia, um grupo de Bacantes pediu-lhe que se lhes juntasse. Como este recusou, estas desfizeram-no e lançaram-no em pedaços ao rio. A sua cabeça, sempre a suspirar por Eurídice, foi levada para o mar e depois sepultada pelas musas. A lira de Orfeu, depois da sua morte, subiu aos céus e transformou-se numa constelação.
[2] amada de Orfeu que na noite de núpcias morreu por ter sido picada por uma cobra, tendo sido sepultada no reino dos mortos, de onde Orfeu a vai tentar libertar.
[3] implacável, inabalável, que não se comove com rogos ou pre­ces; é intransigente.
[4] ridícula, exageradamente sentimental.

 

 

 
 
 
 
 
 
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ORFEU REBELDE
 
Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como um possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade no meu sofrimento.
 
Outros, felizes, sejam rouxinóis...
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que ha gritos comonortadas,
Violências famintas de ternura.
 
Bicho instintivo que adivinha a morte
No corpo dum poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legitima defesa.
Canto, sem perguntar a Musa
Se o canto
É de terror ou de beleza.
Orfeu Rebelde (1958)

 

Após a leitura atenta, analise o poema com base nos seguintes tópicos:

 

1)       Tema/assunto.

2)       Desenvolvimento do tema / momentos em que está estruturado.

3)       Oposição sujeito poético / os outros poetas.

4)       Concepção da poesia defendida.

5)       A poesia assume-se como uma arma em legítima defesa, de modo que são seguintes as marcas de agressividade, revolta e rebeldia a nível do vocabuláriorebelde» (v.1), «possesso» (v. 2), «canivete» (v. 3), «fúria» (v. 4), «compromete» (v. 5), «sofrimento» (v. 6), «desafio» (v. 7), «cruel» (v. 10), «gritos» (v. 11), «nortadas» (v. 11), «violências» (v. 12), «recusa» (v. 13), «defesa» (v. 16).

 

Note-te ainda que a rebeldia que perpassa todo o discurso está realizada com notável mestria, donde se destacam:
 
a) os valores do nível fónico:
-          aliteração do fonema /c/ ao longo do poema conjugada com a aliteração do fonema /t/ =
-          os vários transportes =
-          domínio do verso decassílabo =
 
b) a expressividade da adjectivação onde:
-          é sugestiva a rebeldia, ex.:
-          e há também o adjectivo irónico, ex.:
 
c) o valor dos verbos:
-          domínio do presente (canto, sou, ergo) =
-          o presente do conjuntivo (sejam, saibam) =
-          o imperfeito do conjuntivo (gravasse) =
 
d) a importância das figuras de estilo – a personificação casa-se com as metáforas e as imagens:
         comparação:
«como um possesso» (v.2) =
«gritos comonortadas» (v. 11) =
«canto como quem usa / os versos em legítima defesa» (vv. 15-16) =
 
         Personificação:
«que o céu e a terra, pedras conjugadas/.../ saibam quegritos comonortadas» (vv. 9,11)=
«violências famintas de ternura» (v. 12) =
 
         Repetição: «canto» =
 
         metáforas e imagens:
gravação na «casca do tempo» (v. 3) =
        «rouxinóis» (v. 7) =
        «pedras conjugadas» (v. 9) =
        «moinho cruel que me tritura» (v. 10) =
 
6)       Metáforas da poesia.
7)       Estrutura formal.
8)       Explicação do título.
 
Em síntese: «Torga é simultaneamente [] o poeta da angústia e o poeta da esperança []. Angústia provocada pela ausência do absoluto, ausência de Deus ou do divino nos homens, pelas mortes em vida, pela morte final»
 
Drama interior do sujeito poético:
-          consciência da passagem inexorável (implacável) do tempo e tentativa da recusa, usando os versos «em legítima defesa»;
-          obstinação do sujeito poético, que recusa a poesia lírica romântica simbolizada pelos «rouxinóis»;
-          a imagem órfica (do Orfeu que perdeu a sua amada Eurídice) ao ligar-se a perda da vida exprime a atitude de sujeito poético perante a poesia e a angústia face à morte ou mesmo perante o amor feito «ternura».
 
Note-se as marcas «presencistas» patentes na superlativação do Eu, na emotividade da linguagem e aguda consciência da função do Poeta. Quando se afirma «canto como sou», reconhece-se a sinceridade presencista, porque o homem e o poeta não são indissociáveis, cabendo à poesia revelar o Ser, ou seja, apresentar sincera e autenticamente o homem.
 

(Veríssimo: 1999, 55; Guerra: 1999, 402; Pimenta: 2004., 172)

 

 

 
 
 
 
 
 
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DESCIDA AOS INFERNOS
 
Desço aos infernos, a descer em mim.
Mas agora o meu canto não perfura
O coração da morte,
À procura
Da sombra
Dum amor perdido.
Agora
É o repetido
Aceno
Do próprio abismo
Que me seduz.
É ele, embriaguez nocturna da vontade,
Que me obriga a sair da claridade
E a caminhar sem luz.
 
Ergo a voz e mergulho
Dentro do poço,
Neste moço heroísmo
Dos poetas,
Que enfrentam confiantes
O interdito
Guardado por gigantes,
Cães vigilantes
Aos portões do mito.
 
                                            Orfeu Rebelde (1958)

 

 

O poeta procura descer ao mais fundo de si mesmo, sentindo «um medo triste, de vergonha e assombro» (v. 30), em contraste com o céu que se reflecte, do alto, «inútil como a paz que me promete» (v. 33). Há assim uma catábase contínua ao procurar  descer à interioridade de si mesmo, para de trazer à luz a poesia, o amor e a esperança. Mas, tal como Orfeu em demanda de Euridice, tudo exprime o desalento, a solidão, a tristeza indefinida, o além. E, neste drama íntimo, Torga afirma a sua rebeldia contra os limites da sua condição humana.

Note-se que, na 3ª estrofe, o medo, a vergonha e o assombro pelo que lhe é dado a observar no seu próprio íntimo gelam-lhe «o sangue, no seu nascente» (v. 31), onde ainda se reflecte o céu, cuja paz não aceita.

Aqui o motivo do efeito apaziguador e fascinante do canto de Orfeu no Hades foi anulado, para dar lugar ao vazio do som, ao negativo das sensações. (Mª Helena da Rocha Pereira, «Os mitos clássicos em MT» in Colóquio, nº 43.)

 

 

O drama da criação poética

Embora esta temática não seja recorrente na poesia torguiana, parecem não restar dúvidas quanto à sua inserção em muitos dos seus poemas. Aliás, anteriormente se disse que, com frequência, Torga se sente triste por não conseguir iluminar a sua poesia. Mas a sua reflexão é bem mais profunda e é o próprio que reconhece que "De quantos ofícios há no mundo, o mais belo e o mais trágico é o de criar arte. É ele o único onde um dia não pode ser igual ao que se passou. O artista tem a con­denação e o dom de nunca poder automatizar a mão, o gosto, os olhos, a enxada. Quando deixa de descobrir, de sofrer a dúvida, de caminhar na incerteza e no desespero – está perdido", Diário I (1941). Para Torga, a poesia é um dom inato que compromete o homem integral no dever de não o trair, pois, ao fazê-lo, pode trair o seu semelhante. Torga acredita na literatura, na poesia como emanadoras e reveladoras de uma ordem cósmica que funciona como salvação terrena para o homem que escolheu a perdição divina. Para ele, o acto poético é indissociável de um certo comportamento místico que aproxima o homem dessa ordem cósmica em que se integra a sua animalidade.

A título exemplificativo, veja-se o poema "Maceração" e relembre-se, neste contexto, o mito de Sísifo, rei de Corinto, temido pelas suas crueldades; este, depois de morrer, foi condenado a rolar uma pedra até ao cimo de um monte. Quando deste ponto a pedra se aproximava, voltava a cair e Sísifo era obrigado a recomeçar. Em literatura, esta figura mítica é usada para caracterizar um trabalho extenuante, que exige esforços sem­pre continuados, um trabalho sem fim que tão bem serve o dramatismo[1] da criação poética que Torga incute em muitos dos seus textos. (Peixoto: 2001, 100-101) Mas, diz ele, no Diário XII (1977): «Escrever é um acto ontológico». 

 

[1] próprio de quem se comove com o sofrimento.

 

 

 
 
 
 
 
 
 
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MACERAÇÃO
 
 
Pisa os meus versos, Musa insatisfeita!
Nenhum deles te merece.
São frutos acres que não apetece,
Comer.
Falta-lhes génio, o sol que amadurece
O que sabe nascer.
Cospe de tédio e nojo
Em cada imagem que te desfigura.
Nega esta rima impura
Que responde de ouvido.
Denuncia estas sílabas contadas,
Vestígios digitais do evadido
Que deixa atrás de si as impressões marcadas.
E corta-me de vez as asas que me deste.
Mandaste-me voar;
E eu tinha um corpo inteiro a recusar
Esse ímpeto celeste.
Penas do Purgatório (1954)

  

Este é um poema com a seguinte estrutura externa: três estrofes desiguais (uma sextilha, uma sétima e uma quadra) e de metro irregular. Esquema rimático: abbcbc/deefgfg/hiih, logo, dois versos soltos e os restantes emparelhados, cruzados e interpolados.

 

1.        Qual o tema do texto?

2.        Divida o poema em partes lógicas, pondo em evidência que o assunto se desenvolve de forma circular.

3.        O sujeito poético apostrofa a Musa. Estaremos perante um poeta romântico que acredita na inspiração vinda do alto ou a palavra «Musa» tem outro significado? Justifique a sua resposta.

4.        O sujeito poético não gosta do trabalho que faz, não gosta da sua poesia porque esta não atinge a perfeição que julga dever ter. Transcreva as palavras que revelam o seu desalento.

5.        Complete a seguinte análise:

5.1.   A nível morfossintáctico, notamos que

-          os verbos no imperativo estão ao serviço da função __________________________ da linguagem;

-          o predomínio da coordenação é justificado porque o poema contém uma sequência de ___________________________;

-          de forma geral os adjectivos __________________________________________________________________________ e os nomes tédio e nojo apontam a insatisfação do poeta.

5.2.   A nível estilístico são de salientar a expressividade das metáforas:

-          «frutos acres» = ____________________________________________________________________________________;

-          «Falta-lhes génio, o sol amadurece» = __________________________________________________________________;

-          «estas sílabas contadas, vestígios digitais de evadido» = ____________________________________________________;

-          «corta-me as asas que me deste» = _____________________________________________________________________.

 

(Guerra: 1999, 405-406)

 

 
 
 
 
 
 
 
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MUDEZ
 
 
Que desgraça, meu Deus!
Tenho a Ilíada aberta à minha frente,
Tenho a memória cheia de poemas,
Tenho os versos que fiz,
E todo o santo dia me rasguei
À procura não sei
De que palavra, síntese ou imagem!
Desço dentro de mim, olho a paisagem,
Analiso o que sou, penso o que vejo,
E sempre o mesmo trágico desejo
De dar outra expressão ao que foi dito!
Sempre a mesma vontade de gritar,
Embora de antemão a duvidar
Da exactidão e força desse grito.
 
Mudo, mesmo se falo, e mudo ainda
Na voz dos outros, todo eu me afogo
Neste mar de silêncio, íntima noite
Sem madrugada.
Silêncio de criança que ficasse
Toda a vida criança
E nunca conseguisse semelhança
Entre o pavor e pranto que chorasse.
 
                                                                             Orfeu Rebelde (1962)

 

 

Poema semelhante a «Maceração» no que diz respeito à apresentação do drama da criação poética, da dificuldade de atingir a perfeição. Portanto, revolta contra os limites humanos.

 O sujeito, confrontado com o símbolo arquetípico da poesia ocidental, a Ilíada, não se coíbe de focalizar o embaraço da falta de inspiração, relativizando a «memória» (v.3) dos versos feitos e a «vontade de gritar» (v. 12), a partir da dúvida sobre a «exactidão e a força desse grito» (v. 14). No processo de catábase ou descida aos infernos do ser, do pensar e do ver «dentro de mim» (v. 8), as imagens desconfortantes da «mudez» e do «mar de silêncio» (v.17), desaguando na metáfora da «íntima noite/ sem madrugada» (vv. 17-18) ou da situação deficiente da «criança que ficasse / toda a vida criança» (vv. 19-20), perturba o leitor solidário com o trágico desejo de quem se dilacera com o escrúpulo «de dar outra expressão ao que foi dito» (v. 11). (in Para uma leitura de sete poetas contemporâneos, António Moniz, Ed. Presença, 1997, p.92)

 Recursos estilísticos:

-          Conjunção copulativa com valor adversativo nos vv. 5 e 10 usada para opor a grandeza de uma obra como a Ilíada ou a profundidade interior do poeta com a incapacidade do poeta em abarcar essas realidades através da sua escrita.

-          Hipérbole no v. 5 que reforça  a insatisfação.

-          Anáfora da expressão «tenho» na 1ª estrofe acentua a angústia do poeta.

-          Enumeração gradativa  no v. 7 dos objectos da procura responsáveis pela sua inquietação.

-          Imagem e metáfora: «mar de silêncio» e «noite / Sem madrugada» para transmitir a mesma incapacidade humana em conseguir a palavra certa sempre que se quer.

 

 

  LUSOFONIA - PLATAFORMA DE APOIO AO ESTUDO DA LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO, JOSÉ CARREIRO, 2009
 
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