A PIDE existiu. E torturou.

Texto de Diana Andringa, Público, 16-04-1994, p.21

 

 

«Em 13 de Março de 1962, eu e mais alguns colegas meus fomos presos pela PIDE. Foi uma experiência muito amarga. Eu não imaginava, não sabia o que era uma prisão... Logo na primeira semana, estivemos cinco dias amarrados dentro da cela, sem alimentação, sem nada, só água... Depois foi a tortura física, da tortura moral passou à tortura física. Na minha idade, com 15 anos, não pouparam o meu físico, levei muita porrada para desvendar o nome de elementos do partido. Resisti.»

As palavras são de um guineense. O massacre de Pidjiquiti, três anos antes, despertara-o para a política ao PAIGC. A sua pouca idade fizera dele o elemento de ligação ideal. Mas essa pouca idade não impediu a tortura, o isolamento. Apenas que fosse, como outros foram, transferido para o Tarrafal: «Depois de um mês de interrogatórios, passei dois meses na cela de isolamento. Depois desses seis meses, eu e mais alguns colegas fomos transferidos para o famoso aquartelamento de Mansoa. Eu estive lá cinco meses, os outros foram transferidos para a Ilha das Galinhas, e depois para o Tarrafal.»

Foi a primeira de quatro prisões. A segunda ocorreu em Janeiro de 1964: «Havia momentos que, em cada dia, na cela, morriam cinco ou seis pessoas. E os presos ficavam lá com os cadáveres, 24, 48 horas. Na nossa cela, um homem teve um ataque, ficou paralisado de um lado. Passou um ano assim, esse homem, um lado morto, um lado vivo. Nós é que o assistíamos, lá na cela. Depois, quando morreu, chamámos. Ninguém foi lá. Ficou sábado, domingo, só na segunda é que tiraram o cadáver da cela.

«Depois construíram outra cela. Mas , era uma cela que ninguém podia lá viver, tinha um metro ë meio por dois e meio e uma janelinha, uma janelinha só com dez por dez, com rede. Tinha que se fazer, desculpem, as necessidades lá dentro. Eu passei lá isolado, sozinho, dois anos. Havia momentos em que falava sozinho, para ouvir a minha voz.»

Nestas condições, a transferência para a Ilha das Galinhas era quase uma libertação: «Quando a pessoa era transferida para a Ilha das Galinhas, sentia-se liberta, porque vivendo na cela uma pessoa não sabia que dia era, hoje ou amanhã, e podia, passado um minuto, ser levado e fuzilado, ou torturado outra vez, e a nossa única salvação era ser transferido para a Ilha das Galinhas. O trabalho era muito duro – nós levantávamo-nos às 5 da manhã e fazíamos o trabalho até às 4 da tarde, às 4 da tarde é que íamos comer para depois descansar – mas uma pessoa sentia-se mais liberta, podia-se contactar com os outros presos...»

Da Ilha das Galinhas sai, amnistiado por Spínola, depois de cinco anos de prisão. Mas, pouco tempo depois, é preso novamente: 30 dias de interrogatório mas, depois, a liberdade. Em 1971 é preso pela quarta vez: «Passei 60 dias de interrogatório e, quando cheguei à cela tinha tá um colega que olhou para mim e começou a chorar, porque eu sangrava por todos os lados, nariz, ouvido, boca, as palmas da mão, planta do pé, nádegas, costas. Ele pensou que eu ia morrer. Mas, felizmente, resisti. Depois houve 30 dias em que fui interrogado dia sim, dia não e levava porrada. Levava, e tinha que estar de joelhos, com pedras em baixo, com os braços abertos e ficava assim de manhã até às nove horas da noite, porque tinha havido rebentamentos em Bissau e eles queriam que eu dissesse quem tinha armas e explosivos... Resisti.»

«Passada uma semana, voltaram a interrogar-me. Disseram-me que eu só tinha dito mentiras e recomeçaram. Passei mais 60 dias de interrogatório. Foi terrível... terrível. Até que tive que fazer greve da fome. Passei seis dias sem comer – só bebia água. Quando me vieram buscar outra vez, eu não podia mesmo andar, tiveram de aguentar-me, levaram-me para a PIDE. Mandaram chamar um major médico. Então esse disse-lhes para não voltarem a bater. Eu já estava em último estado, bastava um pouco de tortura e eu podia morrer.»

Várias pessoas me tinham falado da história deste homem, das torturas que sofrera, antes de falar com ele. E enquanto o ouvia não podia deixar de pensar: «Como é que uma pessoa pode sofrer tudo o que este homem sofreu, ter assistido aos sofrimentos a que assistiu – e que eram, alguns, piores que os que tinha sofrido – e continuar vivo, e falar disso, e até sorrir?» (Até lembrar-me que houvera, também, da parte de portugueses, actos de gentileza, de quase cumplicidade, nem que fosse o cigarro colocado entre os lábios de um preso algemado por um furriel com os olhos cheios de lágrimas...)

Lembrei-me naturalmente dele quando ouvi na televisão algo que julgava nunca ter de ouvir (ao menos sem imediata e veemente contestação) fora das salas da António Maria Cardoso: um pide a explicar como os presos eram bem tratados, como até lhes eram oferecidas lautas iguarias, até a troçar de um ex-preso, dizendo-lho que, apesar da prisão e de todas as queixas sobre o que a PIDE fazia, o via com um óptimo aspecto, vinte anos depois...

Entendam: nada tenho, antes pelo contrário, contra que se entrevistem antigos elementos da PIDE/DGS. É urgente fazer a história dos tempos do fascismo, e eles foram protagonistas desse tempo. Mas tenho tudo contra a demissão dos entrevistadores, a inexistência de contradição, a leveza da pesquisa. E tenho, certamente tenho, contra que os jornalistas da democracia tratem com maior deferência um elemento de uma polícia política que foi um dos maiores sustentáculos da ditadura do que tratam uma vítima dessa mesma polícia, dessa mesma ditadura, uma pessoa que, independentemente do acerto ou desacerto das suas posições, se bateu pela democracia. Por essa democracia que permite que um torcionário tenha o mesmo direito à palavra que uma vítima...

Não conheço José Manuel Tengarrinha. Mas chocou-me vê-lo, vinte anos depois da abolição da PIDE/DGS pela pressão da população, humilhado de novo por um pide. Mesmo se penso que teve alguma responsabilidade, que não deveria nunca ter acedido a participar naquele pseudodebate, que nunca deveria ter aceitado discutir, de igual para igual (igualdade que, ainda para mais, nem sequer existiu, o pide tendo nitidamente estatuto de estrela convidada), com um agente da PIDE.

Chocou-me ouvir um jornalista dizer, quando Tengarrinha referiu as vítimas, «diga lá um ou dois nomes», como se fosse preciso ser Tengarrinha a dar os nomes, como se os jornalistas não soubessem também ao menos dois ou três de mortos pela PIDE, nem que fossem apenas Dias Coelho, Humberto Delgado, Ribeiro Santos...

Chocou-me ouvir de novo, sem contestação, a versão pidesca do assassínio de Delgado – em absoluto contraste com a confissão dos próprios pides envolvidos no assassinato... ou com a de outro inspector da PIDE, Pereira de Carvalho, nas declarações que me prestou para a Geração do 60. Numa carta ao director há dois dias publicada nosso jornal, Manuel de Brito, editor, dizia que o programa o tinha humilhado, 3ue as palavras do pide o tinham humilhado, porque o obrigou a recordar que, vinte anos antes, tinha medo dele – e ele não tinha agora medo de coisa nenhuma.

Foi outra coisa a que me humilhou: foi o sentir que todos éramos cúmplices do que ali se passava, porque, em nome de uma distância dita necessária à história, admitimos que se calasse, tempo de mais, a memória do passado. Porque não exigimos, suficientemente alto, que fossem preservados e transformados em museu a PIDE ou o Aljube. Porque deixámos praticamente abandonadas as campas dos mortos no Tarrafal.

Porque admitimos que Lisboa 94 recordasse tão pouco que festejávamos também os 20 anos do derrube da ditadura e, sobretudo, lembrasse tão pouco a ditadura. (E lembro-me de ouvir, em Weimar, que será capital europeia da cultura em 99, um responsável político dizer: «O programa da capital europeia da cultura não pode esquecer Buchenwald. Porque Weimar é a cidade de Goethe e de Schiller, mas é também a de Buchenwald. Buchenwald faz também parte da cultura alemã.») Porque permitimos que o 25 de Abril, em vez de memória do que existira antes, e do que fora a alegria de todo um povo, depois, se transformasse numa efeméride comemorada com alguns discursos.

Porque, calando-nos, permitimos que um pide possa insultar-nos, vinte anos depois.

 

Diana Andringa, Público, 16-04-1994, p.21

 

 

 

Síntese do artigo «A PIDE existiu. E torturou.»

 

 

POLÉMICA

 

-          A 25 de Abril de 1994, comemoraram-se os 20 anos do derrube dos 48 anos de ditadura fascista em Portugal.

-          Como comemoração dessa data importante, levaram à televisão um ex-pide, para dar o seu testemunho.

-          Durante o debate o ex-pide defendeu-se tão naturalmente que encobriu todos os maus tratos executados pela PIDE, contradizendo, assim, a declaração de alguns indivíduos que noutras alturas tinham confirmado as terríveis torturas

Explosão 1: Este conjunto de declarações provocou grande polémica levando os constrangidos a manifestarem-se.

 

 

 

 

 

 

 

 

EXPERIÊNCIA DE UM GUINEENSE

 

1ª  prisão – 13 de Março de 1962:

 

-          cinco dias amarrado dentro da cela, sem alimentação, só água – tortura física e psicológica;

-          um mês de interrogatório;

-          seis meses de isolamento no Tarrafal, prisão em Cabo Verde, transferência para a prisão da Ilha das Galinhas, de seguida, nova transferência para o Tarrafal.

 

2ª prisão – Janeiro de 1964:

 

-          assistia à morte de cinco a seis presos por dia;

-          exposição dos mortos nas celas durante vários dias;

-          isolado durante dois anos – más condições de sobrevivência – , transferência para a prisão da Ilha das Galinhas – fazia trabalho pesado;

-          sentimento de alegria por poder conviver com outros presos;

-          passados cinco anos, sai amnistiado por Spínola.

 

3ª prisão:

 

-          30 dias de interrogatório.

 

4ª prisão – 1971:

 

-          60 dias de interrogatório;

-          muita tortura física durante 30 dias, dia sim, dia não: ponham-no de joelhos, em cima de pedras, com os braços abertos, de manhã à noite, mas ele nada revelou.

-          Passados dois meses de interrogatório, decide fazer greve de fome. A médica que o assiste aconselha os agentes dos serviços prisionais a não lhe baterem mais porque poderia morrer.

-          É  libertado.

 

Que pretendiam dele?

Que desvendasse os nomes dos elementos do partido PAIGC (Guiné) que tinham em seu poder armas e explosivos.

 

 

LUSOFONIA - PLATAFORMA DE APOIO AO ESTUDO DA LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO, JOSÉ CARREIRO <http://lusofonia.com.sapo.pt/PIDE.htm > 2011-12-27

 

 

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 José Carreiro
 
aguiarcarreiro@gmail.com