A heteronímia pessoana

Os conceitos de pseudónimo e heterónimo
Explicações possíveis da heteronímia
Exegese em Pessoa: o drama em gente
O caso clínico de Fernando Pessoa
Significação dos heterónimos
Verifique os seus conhecimentos relativamente à criação heteronímica pessoana.
Sabe identificar as pessoas de Pessoa? 

Heterónimos

Alberto Caeiro – a poesia das sensações; a poesia da natureza.
Ricardo Reis – o neopaganismo; o epicurismo e o estoicismo.
Álvaro de Campos – a vanguarda e o sensacionismo; a abulia e o tédio.
Bernardo Soares – semi-heterónimo.

 

     

            

 

 

 

 

 

        

 

 

 

 

 

       A heteronímia pessoana
 

       Os heterónimos são personalidades poéticas completas (tendo mesmo data de nascimento e de morte). 
 

Os conceitos de pseudónimo e heterónimo 

Pseudónimo é basicamente o nome falso inventado por um autor para esconder, por esta ou aquela razão, com esta ou aquela função, a sua identidade civil. Objecto de  um jogo, de um trabalho possível, de investimentos diversos, o pseudónimo tem na sua base uma operação de ocultação ou de substituição do nome próprio. O heterónimo é um nome diferente, outro (irregular, anómalo). E no espaço de uma heteronímia plural, como a de Pessoavários heterónimos –, tem na base uma operação não de máscara do nome próprio que o pseudónimo sempre supõe ou para o qual remete, mas precisamente, uma operação de repetida diferenciação, de estranhamento, de construção de uma estranheza ou outridade (qualidade outra) que ao limite, como em Pessoa é uma espécie de (re)construída perda do nome próprio. O que exemplarmente é designado pelo referido gesto de Pessoa admitindo esse seu nome enquanto autor de poesia como um outro heterónimo, como Jorge de Sena o viria também a referir.

«Nunca me sinto tão portuguesmente eu como quando me sinto diferente de mim – Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, e quantos mais haja havidos ou por haver

Esses outros nomes são pensados, fingidos e vividos como outros eu, diferindo (e de facto interagindo) até como que apagarem um eu central de onde irradiassem ou que os produzisse. Anulando esse eu ou tão manifestando a sua impossibilidade, são «vistos diante» como outras tantas personalidades, outra gente, outras maneiras de escrever, outros «estilos». Daí que sejam, mesmo que sumariamente biografados, que uns deponham sobre outros, se comentem, critiquem, distingam, identifiquem.

Mesmo que eventualmente acompanhado por uma ficção biográfica, o pseudónimo é sempre, tendencialmente, a construção de um nome próprio; em Pessoa, a heteronímia, diferentemente, se se quiser radicalmente, é a impossibilidade do nome próprio. Se, sobretudo em determinados casos mais trabalhados e ludicamente jogados, o pseudónimo é um revelador do autor como construção, efeito do texto, numa operação análoga à que constrói o sujeito no discurso, o heterónimo, a heteronímia de Pessoa é isso também, mas mais e outra coisa para além disso. 

Manuel Gusmão, «Prefácio» in A Poesia de Alberto Caeiro, Editorial Comunicação

 

  

 

Explicações possíveis da heteronímia 
 

Vários caminhos convergentes, assinaláveis nas prosas inéditas, nos levam a explicações possíveis da heteronímiacomo se a pluralidade estivesse realmente no cerne do "caso" literário de Fernando Pessoa e a consciência disso manejasse os fios do seu pensamento.  

Eis algumas dessas explicações:  

1ª) A constituição psíquica de Pessoa, instável nos sentimentos e falho de vontade, teria gerado a multiplicação em personalidades ou personagens do drama em gente.

Pessoa explica o aparecimento dos heterónimos dizendo que a origem destes reside na sua histeria, provavelmente histeroneurastenia[1], logo numa "tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação".

Vários fragmentos das Páginas Íntimas atendem "à dispersão do eu".

 

2ª) A qualidade de poeta de tipo superior levá-lo-ia à despersonalização. Com efeito, na concepção de Fernando Pessoa, segundo um fragmento inédito, há quatro graus de poesia lírica e no cume da escala, onde ele se coloca, o poeta torna-se dramático por um dom espantoso de sair de si.

No segundo grau, o poeta ainda mais intelectual, começa a despersonalizar-se, a sentir, não porque não sente, mas porque pensa que sente, a sentir estados de alma que realmente não tem, simplesmente porque os compreende. Estamos na antecâmara da poesia dramática, na sua essência íntima. O temperamento do poeta, seja qual for, está dissolvido pela inteligência. A sua obra é unificada pelo estilo, último reduto da sua unidade espiritual, da sua coexistência consigo mesmo.

“O quarto grau da poesia lírica é aquele muito mais raro, em que o poeta, mais intelectual ainda, mas igualmente imaginativo, entra em plena despersonalização."

Não sente, mas vive os estados de alma que não tem directamente, supondo que o poeta, evitando sempre a poesia dramática, externamente, avança ainda um passo na escala da despersonalização.

Certos estados de alma, pensados e não sentidos, sentidos imaginativamente e por isso vividos tenderão a definir, para ele, uma pessoa fictícia que os sentisse sinceramente.

Não se detém Pessoa precisamente no limiar do seu caso excepcional de poeta múltiplo, autor de autores?

A heteronímia seria o termo último de um processo de despersonalização inerente à própria criação poética e mediante o qual Pessoa estabelece uma axiologia literária.

O poeta será tanto maior quanto mais intelectual, mais impessoal, mais dramático, mais fingidor – é o sentido pleno da "Autopsicografia".

O progresso do poeta dentro de si próprio, realiza-se pela autoria sobre a sinceridade, pela conquista (lenta, difícil), da capacidade de fingir: "A sinceridade é o grande obstáculo que o artista tem de vencer. uma longa disciplina, uma aprendizagem de não sentir senão literariamente as coisas, pode levar o espírito a esta culminância. "

Exprimir poeticamente significa fingir.

 

3ª) A qualidade de português levaria o poeta a despersonalizar-se, a desdobrar-se em vários.

"O bom português é várias pessoas – reza um fragmento inédito. Nunca me sinto tão portuguesmente eu como quando me sinto diferente de mim – Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Fernando Pessoa e quantos mais haja havidos ou por haver".

Se um indivíduo deve despersonalizar-se para seu progresso interior, uma Nação deve desnacionalizar-se – e esta é em particular a vocação portuguesa.

O ideal que Pessoa inculca a Portugal, é consequentemente o que se propõe a si próprio: "Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma coisa" – o pluralismo, o politeísmo.

 

4ª) A multiplicidade do escritor seria o produto necessário de uma nova fase de civilizaçãofase que Fernando Pessoa caracteriza ao explicar o Orfeu e o sensacionismo dum ângulo sociológico.

A decadência da , quebra de confiança na ciência, a complexidade de opiniões traduz-se pela ânsia actual de "ser tudo de todas as maneiras".

A poesia poderá entender-se também como resposta a um estado colectivo de crise, mas em sentido diferente, isto é, como antídoto, como bálsamo espiritual.

Caeiro, libertador imaginário, um remédio (provisório) para a dor de pensar de que sofre Pessoa ortónimo, uma fuga.

Pessoa ter-se-ia dividido para se compensar.

Heteronímia seria um modo de suprir a carência, verificada na época, de personalidades superiores, e em especial de grandes personalidades na literatura portuguesa: "Com uma tal falta de literatura, comohoje, que pode um homem de génio fazer senão converter-se ele em literatura?".

Adaptado de Hipermedia Pessoano - Fernando Pessoa: o poeta dos heterónimos, http://www.ufp.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=191%3Ahipermedia-pessoano-fernando-pessoa-o-poeta-dos-heteronimos&catid=21%3Auniversidade&Itemid=68 (consultado em 2011-12-10).


 

[1] No seu Tratado de Psiquiatria Clínica, vol. I, o inglês W. Mayer Gross diz, na página 401: «Os hebefrénicos podem seguir um caminho por largos tempos diagnosticados de "neurasténicos" e "neuróticos"... Sentem-se atraídos por ideias pseudo-científicas e pseudo-filosóficas, sentem-se capazes de grandes descobrimentos e invençõesPor sua vez, afirma-se no Dicionário Enciclopédico de Medicina (p. 871) que «os enfermos (esquizofrénicos na forma hebefrénica) entregam-se a excessos de romantismo, de filosofismo ou de misticismo

 

 


Em síntese, podemos dizer que Fernando Pessoa apresenta duas explicações para a origem dos heterónimos que não se excluem, já que se podem complementar:

1)      Num primeiro momento diz que são consequência da anormalidade histérico-neurasténica do seu psiquismo, que facilita despersonalização e a simulação.

2)      Numa carta a Adolfo Casais Monteiro explica que surgem com os poemas de que são autores, não são ideados previamente à escrita dos poemas.

 

 

 

 

 

A exegese em Pessoa: o drama em gente
 

Para Casais Monteiro os retratos de Caeiro, Reis e Campos foram feitos para as obras e não estas para aqueles, isto é, os poemas são os criadores dos autores fictícios.

As biografias imaginárias (mas de modo algum arbitrárias), prolongam o acto criador dos poemas, com ele se relacionam mas dele se destacam como leitura desses poemas definitivamente fora do seu criador.

A crítica apercebeu-se que não pode haver uma leitura autónoma de cada uma dessas manifestações heteronímicas.

Os heterónimos são a totalidade fragmentada. Por isso, não têm leitura individual, mas também não possuem dialéctica senão na luz dessa totalidade de que não são partes, mas plurais e hierarquizadas maneiras de uma única e decisiva fragmentação.

O carácter "dramático" da sua poesia (aquilo a que chamou "o drama em gente"), concentra a hipótese de um drama da personalidade psicológica (os desdobramentos da personalidade) e não sobre a natureza dramática da própria poesia.

Segundo José Augusto Seabra "há em Pessoa uma transferência da dramaticidade para o lirismo, do "poeta dramático" para os poetas líricos, que são afinal os heterónimos."

"A multiplicidade dos sujeitos poéticos – o poetodrama – é aqui a condição de realização do lirismo dramático – do poemodrama."

O sujeito dramático (poético) aparece pois ao mesmo tempo como seu próprio interlocutor de uma infinidade de destinatários num diálogo permanente e múltiplo.

Cada movimento por ele proposto surge sempre associado a um determinado heterónimo ou conjunto de heterónimos. Por exemplo, o paulismo inscreve-se numa das vertentes da poesia ortónima, o interseccionismo se distribui por Pessoa " ele mesmo" e por Álvaro de Campos; o neopaganismo inspira a poesia de Alberto Caeiro e de Ricardo Reis, enquanto o sensacionismo parece ramificar-se com nuanças pelos vários heterónimos.

O poeta ortónimo situa-se ao mesmo nível que os restantes poetasele é afinal um heterónimo a que o autor emprestou a sua identidade privada. Como aliás, diz Jorge de Sena, que numa carta a Fernando Pessoa, escreve: "E você, quando escreveu em seu próprio nome, não foi menos heterónimo do que qualquer um deles".

 

Hipermedia Pessoano - A Exegese de Pessoa: o "drama em gente"
http://www.ufp.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=190%3Ahipermedia-pessoano-exegese-em-pessoa&catid=21%3Auniversidade&Itemid=68
(consultado em 2011-12-10, texto com supressões)

 

 

O caso clínico de Fernando Pessoa
 

A sua poesia exprime sempre os seus sentimentos ou as suas crenças, sejam no que for. Fernando Pessoa não sabe e não quer mentir, embora minta e se contradiga. Não é então ele que fala ou escreve, porque realmente não existe ele.

Quando afirma ou nega pronuncia-se somente uma parte dele, uma fracção ocasional do seu eu. A dissociação mental de que é vítima despersonaliza-o. Então a perda da integridade psíquica fá-lo sentir-se outro, ou outros, conforme as fracções próprias que o determinam. 

«Vivem em nós inúmeros,
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma
mais eus que eu mesmo
 

                                              (Ricardo Reis) 

Na normal evolução da doença esquizofrénica[1] vai-se acentuando a progressão da dissociação psíquica até chegar à dissolução completa da personalidade, que é a demência- Fernando Pessoa, falecendo aos 47 anos de idade, não teve tempo de chegar .

Sendo um psicopata hebefrénico[2], está implicitamente entendido que Fernando Pessoa não era o que se chama um louco. Padecia dessa nosofobia[3] porque, como é próprio da hebefrenia, conservava a inteligência e a lucidez do seu estado a agravar-se progressivamente e sabia o fim evolutivo que fatalmente o aguardava no avanço da idade.

No sofrimento atroz que lhe provocava à consciência da desagregação do pensamento, provavelmente terá (ainda que temido) desejado a loucura, porque a perda de lucidez do seu estado lhe seria uma libertação. No relâmpago de uma crise, algures chegou a exclamar: «Graças a Deus que estou doidoNão o estava, claro. Nenhum doido (demente) diz que o é, pois que não reconhece o seu estado. Mas estava, isso sim, no caminho da demência e, nalguns momentos, muito próximo dela.

Psicopata profundamente atingido, e com a obstinação de escrever, fatalmente que Fernando Pessoa haveria de transmitir ao papel as vicissitudes dramáticas do seu espírito. 

Mário Saraiva (médico), O caso clínico de Fernando Pessoa
Lisboa, Edições Referendo, 1990 – texto com supressões


[1] Esquizofrenia: do grego skhízein, «fender» + phrén, «mente; espírito» + -ia.
[2] Hebefrenia: uma categoria de esquizofrenia que começa, habitualmente, na adolescência e é caracterizada por inércia, embotamento da afectividade, autismo, bizarria de comportamento, delírios, dissociação intelectual da coesão íntima da personalidade.
[3] Nosofobia: horror excessivo às doenças; medo mórbido de adoecer. (Do gr. nósos, «doença» + phobe¸n, «ter horror a» + -ia)

 

 

Significação dos heterónimos
 

Os heterónimos são considerados a grande criação estética de Pessoa e, ademais, conduzem a Pessoa a uma profunda reflexão sobre a relação entre verdade e realidade e entre existência e identidade. 

Como processo criativo, de cariz inovador e anti-romântico, a heteronímia enquadra-se claramente no movimento modernista, inscrevendo-se em cheio neste clima de insinceridade criadora. 

Os heterónimos mais importantes são Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, embora também podemos citar o semi-heterónimo Bernardo Soares, autor do Livro do Desassossego. Entre pseudónimos, heterónimos e semi-heterónimos contam-se 72 nomes. 

 Como conclusão, e relacionando os três heterónimos estudados com Fernando Pessoa (ortónimo), demos a palavra ao próprio Pessoa: “Pus no Caeiro todo o meu poder de despersonalização dramática, pus em Ricardo Reis toda a minha disciplina mental, vestida da música que lhe é própria, pus em Álvaro de Campos toda a emoção que não dou nem a mim nem à vida”.

David Mourão-Ferreira (in O Rosto e as Máscaras), comentando o texto citado de Pessoa, escreve: “Seja como for, nós poderemos encará-los (os heterónimos) sob uma outra perspectiva:

Alberto Caeiro, desejando-se um simples homem da natureza, inteiramente desligado dos valores da cultura, pretendeu, sobretudo, ser;

Álvaro de Campos, sem se mostrar tão radical na recusa dos valores culturais — mas contestando-os, afinal, de modo muito mais corrosivo — esforçou-se principalmente por sentir, em lúcida histeria, de acordo com os ritmos do mundo moderno;

e Ricardo Reis, por seu turno, não mais desejou que viver segundo o ensinamento de todas as culturas, sinteticamente recolhidas numa sabedoria que vem de longe e que nem por isso deixa de ser pessoal.

Em suma: uma arte de SER, uma arte de SENTIR, uma arte de VIVER”. 

(António Afonso Borregana, Fernando Pessoa e Heterónimos, Texto Ed., 1995, p.18)

 

 

 

 

Verifique os seus conhecimentos relativamente à criação heteronímica pessoana. 

Complete os espaços do texto que se segue com as seguintes palavras/expressões:
 

Despersonalizar-se
Heterónimos
Autónomas
Pensamento
Apesar de
Histeroneurastenia
Fingimento poético
Psiquiátrico
Heteronímia
Criadoras
Personagens
Adolfo Casais Monteiro
Simular
Emoções

  

A génese da _________________ foi explicada pelo próprio Fernando Pessoa numa carta a _________________. A sua "pequena humanidade" foi o resultado de um problema _________________, denominado de _________________. Associado a este, surge a tendência excessiva de Pessoa em _________________, _________________, o que se relaciona com o _________________ _________________.

Com a criação dos _________________, Pessoa quis criar nem mais nem menos do que _________________ dramáticas.

Caeiro, Reis e Campos são, então, personagens _________________, cujos sentimentos e cujo _________________ não são os de Pessoa. _________________ fictícias, são personagens _________________. 

(in Das Palavras aos Actos. Ensino Secundário. 12º Ano
Ana Maria Cardoso, Célia Fonseca, Maria José Peixoto, Vítor Oliveira, Porto, Edições Asa, 2005, p. 102)

 

 

 

Sabe identificar as pessoas de Pessoa? 

Identifique os heterónimos pessoanos e o ortónimo nos excertos seguintes, a partir das características dominantes. Justifique.

 

Excerto A 

Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,
Acelero...
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,
À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exacto que a vida.
Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim...

 

Excerto B

 

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.

 

Excerto C

 

Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala, O mais é nada.

 

Excerto D

 

Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela
E oculta mão colora alguém em mim.
Pus a alma no nexo de perdê-la
E o meu princípio floresceu em Fim.

 

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José Carreiro, Lusofonia < http://lusofonia.com.sapo.pt/literatura_portuguesa/FP_heteronimia.htm > 2011-12-15

 

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 José Carreiro
 
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