Alberto Caeiro é considerado o mestre dos heterónimos (mesmo pelo ortónimo).

É uma pessoa de pouca instrução, nascido em Lisboa e que vive quase toda a sua vida como camponês.

A sua escrita caracteriza-se por:

a)     Ser anti-metafísica.

b)    A objetividade visual.

c)     Consideração da sensação como realidade, daí a rejeição do pensamento filosófico.



Alberto Caeiro
uma arte de ser

 

 

 

 

(in Preparação para o Exame Nacional 2010. Português 12º Ano, Vasco Moreira e Hilário Pimenta, Porto Editora, 2010, p. 40)

 

 

 

TEXTOS DE APOIO 

Texto 1 

Os aspectos biográficos da vida de Caeiro poderão contribuir para explicar a simplicidade que Caeiro, para si, reclama. Vendo-se como um simples "guardador de rebanhos", não admira que prefira a objectividade e a naturalidade próprias dos mais simples. Privilegia os órgãos dos sentidos, principalmente a visão e a audição, porque são estes que lhe permitem uma percepção exacta das coisas que existem na natureza e com ela e nele evoluem sem precisarem de uma explicação metafísica ou intelectual.

Para ele, há a realidade, por isso o tempo não existe e, consequentemente, não faz referência ao passado, nem ao futuro, mesmo porque todos os instantes reflectem a unidade do próprio tempo.

O facto de se interessar apenas por aquilo que as sensações captam faz dele um sensacionista. Adere espontaneamente às coisas e identifica-se com elas, interrogando-se sobre o porquê de se procurar o mistério das coisas e afirmando não saber mais que o rio ou a árvore ("O mistério das coisas, onde está ele?/(...) Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?/ E eu, que não sou mais do que eles, que sei eu disso?"). Por isso vai recusar o pensamento e rir daqueles que pensam ("Sempre que olho para as coisas e penso no que os homens pensam delas, / Rio como um regato que soa a fresco numa pedra.").

Estas afirmações de Caeiro reforçam o carpe diem, filosofia de vida que adopta o fruir da realidade, de uma forma livre e despreocupada, não vendo nas coisas nenhum sentido oculto, reduzindo-as à percepção que delas tem, à sua forma, à sua cor e à sua concretez.

Diz-se contrário à filosofia e apologista dos sentidos ("Eu não tenho filosofia: tenho sentidos..."), mas a verdade é que cria a sua própria filosofia e um pensamento incomum, uma vez que, ao recusar o pensamento, teve de pensar nas razões que o levaram a fazê-lo.

De qualquer modo, após a leitura dos poemas de "O Guardador de Rebanhos", parece não restarem dúvidas quanto ao seu pendor simplista e reducionista, de forma a poder viver sem dor e envelhecer sem angústia, o que é confirmado pelo conjunto de processos estilísticos que emprega na sua poesia, realçando-se a abundância de substantivos concretos, a quase ausência de adjectivos (utiliza fundamentalmente os de teor cromático ou formal, isto é, sem valoração); recorre, ainda, ao presente do indicativo e à coordenação, excluindo as figuras do pensamento como a metáfora, a sinédoque, a hipérbole, a antítese, o que confirma também a sua tendência para a objectividade e para a redução. Em contrapartida, a poesia de Caeiro apresenta comparações e alguns paradoxos como forma de objectivar o próprio sujeito. A nível fónico, também não são visíveis recursos como as aliterações, assonâncias, ou onomatopeias, dado que a palavra, em Caeiro, praticamente se anula em favor do seu referente, facto que também pode ser explicado pelo versilibrismo que este adota, indiciando a lógica subjacente à poesia deste heterónimo pessoano e que assenta na crença na singularidade das coisas, mas que marca uma ruptura com os sistemas literários ainda vigentes.

Em conclusão, parece oportuno referir que a criação deste heterónimo terá permitido ao ortónimo libertar-se, quanto mais não fosse momentaneamente, da "dor de pensar" que sempre o atormentou, e com ela aprender a viver a vida de uma forma simples e espontânea, justificando-se, deste modo, a designação de Mestre.

(Maria Peixoto e Célia Fonseca, Português B)

 

 

Texto 2 

É o poeta que aceita o mundo como ele é  sem curar de lhe investigar a natureza e a origem. O poeta vive na observação, pelos sentidos, do mundo real, no tempo presente. Para ele nãopassado, porque recordar é atraiçoar a natureza (que é apenas o agora); nãofuturo, porque o futuro é campo de miragens enganadoras. É, em suma, o poeta do real e do objectivo. os sentidos contam para ele e os olhos são o mais importante, talvez porque os olhos captam mais largamente o mundo real.

Não quer nada com a Filosofia: " Há metafísica bastante em não pensar em nada"; "o único sentido íntimo das coisas é elas não terem sentido íntimo nenhum". Mas note-se que tudo isto não passa de um belo jogo artístico. Com efeito, Caeiro, ao negar toda a Metafísica, está a raciocinar, está a construir uma nova metafísica: a antimetafísica.

Pessoa imaginou Alberto Caeiro como tendo apenas a 4º classe da instrução primária; era no entanto seu mestre e mestre de Ricardo Reis e de Álvaro de Campos (engenheiro). Mais uma prova de que tudo isto é apenas um jogo literário.

Mestre, Meu mestre querido!
Coração do meu corpo intelectual e inteiro!
Vida da origem da minha inspiração!
Mestre, que é feito de ti nesta forma de vida?

Não cuidaste se morrerias, se viverias, nem de ti nem de nada,
Alma abstracta e visual até aos ossos,
Atenção maravilhosa ao mundo exterior sempre múltiplo,
Refúgio das saudades de todos os deuses antigos,
Espírito humano da terra materna,
Foro acima do dilúvio da inteligência subjectiva...
 

                                                                    (Álvaro de Campos)

 

E o jogo continua. Como camponês que era ("guardador de rebanhos"), convinha que Caeiro não se revelasse num estilo muito culto. E, de facto, o predomínio da coordenação, as imagens e comparações comezinhas, a simplicidade do vocabulário, o predomínio dos sentidos denotativos, tudo isto dá à sua linguagem um nível próprio de um homem do campo, embora, paradoxalmente, com bastante cultura e sobretudo com hábitos de raciocinar. A sua linguagem é sobretudo abstracta, adaptada ao raciocínio, e nunca nela surge a descrição impressionista da realidade. O seu realismo ingénuo, paradoxalmente, desemboca sempre no raciocínio. Como poeta bucólico, Caeiro deveria basear a sua poesia na descrição visualista da natureza. Não não o faz, mas a sua linguagem é adaptada à exposição de uma teoria antimetafísica. Querendo repudiar qualquer filosofia, Caeiro transformou-se num poeta filósofo, ou antifilósofo.

Este poeta dá-nos a impressão de um homem culto que pretende despir-se da farda pesada de toda a cultura amontoada ao longo dos séculos: " O essencial é saber ver/ Saber ver sem estar a pensar, / Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!), / Isso exige um estudo profundo, / Uma aprendizagem de desaprender..." "Procuro despir-me do que aprendi". 

(António Afonso Borregana, Fernando Pessoa e Heterónimos, Lisboa, Texto Editora, 1995, p.16)

 

Texto 3 

Para se curar da sua tristeza de ser consciente, Fernando Pessoa, com a ajuda de Whitman, se sonhou Caeiro. O mundo existe, a realidade é o que vemos, tocamos e cheiramos, tudo o mais são falsos pensamentos de filósofos e filosofias doentes. Decadentes, como diria o seu mestre Nietzsche. Pareceria assim que de novo o sentido da Realidade, a alegria das coisas exteriores, a aceitação do presente na sua diversidade e contradição infinitas, punham um termo ao deprimente reinado do Sonho, ao pessimismo, à tristeza, à era da Decepção. Caeiro é a nossa reconciliação com o universo, o regresso à idade idílica da harmonia com a Natureza que, aliás, não é idílica. Na verdade, Caeiro é o mero Sonho desse Sonho. Nós não podemos recuperar a alma grega que o cristianismo corroeu sem remédio. Não podemos ser pagãos sem inocência. Caeiro não é uma saída verdadeira do labirinto do Tempo, o nada vivo em que estamos, como Pessoa visiona. É uma porta pintada para nos fazer crer que tocamos com mãos de vida e não de sombra o autêntico real. Foi com a invenção-Caeiro que Pessoa ascendeu à sua vida duplamente mítica e é com os versos de Caeiro e dos seus companheiros de ficção que o mito-Pessoa se tornou o símbolo da Modernidade se, por modernidade, se entender a redenção pelo humor da vivência do Absurdo e da Perdição da existência humana em busca de si mesma. Contudo, Pessoa-Caeiro não quebrou o círculo simbolista da Decepção senão pagando por ele um preço excessivo, transmutando (em ficção) a consciência infeliz em felicidade inconsciente

(Eduardo Lourenço, Fernando, Rei da Nossa Baviera, Lisboa, IN-CM, 1986)

 

 

Texto 4 

CAEIRO realiza-se, Caeiro não anseia, não sofre, não se esgota, não luta. Caeiro é feliz. Caeiro nem sequer pensa, Caeiro é. Tem a inocência de se limitar a ser, a aceitação de ser natural, sem subjetividade, superfície. Sem subjetividade, por isso, sem conflitos com o real. É um ser plano, a uma dimensão, sem profundidade, transparente. Esta é a sua originalidade. Porque não é de um humano ser humano assim. Antes de pedra, antes de árvore. Como se tivesse alcançado um estado de beatitude, em que nãorevolta, nem desejo, nem ânsia, nem sequer compreensão: sentidos. o contacto material com os outros corpocomum natureza, homens ou coisas. A metafísica está, assim, completamente posta de lado. Deus pode ser o que existe para os sentidos e sem qualquer ideia unificadora, racionalizadora, sem qualquer sistema.

O pensamento foi ultrapassado como se fase larvar desta iniciação e, agora, ver e sentir na pele são as únicas formas de relação com o real. Os símbolos da infância e da criança tornam-se inevitáveis. Caeiro é, talvez, uma nova abordagem do paraíso perdido, que os românticos nunca encontraram, porque nunca se desumanizaram, antes se complexizaram como humanos, seres únicos, incomuns, raros. Caeiro não. É comum e bom. Caeiro e os seus poemas são uma metáfora, uma construção alegórica para a doutrinação de umas quantas linhas: objectividade; negação do misticismo; negação da metafísica; negação do sentimentalismo social e individual; hipertrofia do natural no humano.

A poesia de Caeiro poderia correr o risco do se tornar campesina, bucólica, ao desenhar pequenos quadros desse tipo, mas estes quadros não são senão a metáfora dum estado de sossego, de tranquilidade, de paz existencial. Porquê o «guardador de rebanhos», a investidura no pastor? Figura pousada sobre e terra, o humano que é tão erva e tão bicho como os bichos e a erva com que se mistura. O pastor instituído como o que conhece a natureza intuitivamente, a sabe, com ela dialoga, domina as suas marés. Por isso, quem é Caeiro tem um pastor em vez de alma e rebanhos em vez de pensamentos. Caeiro, no entanto, conhece o que é ser humano e todo o seu rastro de sofrimento e angústias, pois essa sombra está na sua poesia em contra à luz que ele é («Pensar incomoda corno andar à chuva»). Também a natureza tem defeito, também a natureza adoece.

Caeiro não tem memória, não armazena nenhum código pronto a integrar (e a envelhecer) qualquer novo sinal. A abstracção foi eliminada. Nãoconceitos, há objectos. Nãosistema, há muitos elementos. Há a constante novidade. Há a inocência. Caeiro tem muitas vezes uma posse infantil da linguagem, pela eliminação dos mecanismos mais lógicos: a pronominalização, e adverbiação, a subordinação. Caeiro exibe repetições infindáveis, enumerações perfeitamente substituíveis por uma fórmula sintetizadora, enredos de coordenações. Uma escrita naïve.

Em tudo isto Caeiro não é, ainda assim, a natureza. Esta distância inultrapassável a que fica do seu alvo insinua nos seus versos uma nostalgia que acaba por ser resolúvel em termos naturais: «o sol nem sempre brilha».

Nãonada do óbvio na poesia de Caeiro. Dizer que a árvore é árvore não é urna evidência, muito mais nessa época do neo-romantismo e de simbolismo, em que os homens se vêem e si e aos seus fantasmas; dizer que uma árvore é uma árvore, em tal época, é quase uma revolução

(in Vamos ler, Maria Almira Soares, Lisboa, Texto Editora, 1986 e 1987)

 

 

Texto 5 

Caeiro apresenta-se como anti-metafísico, negando o valor ao pensamento (O Guardador de Rebanhos, I): 

Os meus versos são contentes.
tenho pena de saber que são contentes,
Porque, se o não soubesse
Em vez de serem contentes e tristes
Seriam alegres e contentes.
 

O pensamento tem mesmo um valor negativo: se não pensasse os seus versos não teriam nada de tristeza, seriam apenas «alegres e contentes».

«Pensar incomoda como andar à chuva

Foi este incómodo de pensar que Fernando Pessoa nunca conseguiu evitar. vimos como a «dor de pensar» sempre o torturou, inventando muitas saídas para o drama do seu «eu» dividido entre o real e o imaginário, entre o ser e o não ser. A tentativa mais radical de fugir à «dor de pensar» foi esta de transferir a sua alma para um poeta bucólico que olha e sente o mundo com a simplicidade com que uma criança olha uma flor. Mas nem assim o poeta consegue libertar-se da inteligência que vem sempre toldar a simples alegria de ver: «Os meus pensamentos são contentes. / tenho pena de saber que são contentes», porque, assim, ficam «contentes e tristes».

A plena felicidade exige não o olhar simples de uma criança, mas também a sua inconsciência. Não é apenas nisto que o sistema de Caeiro claudica. Como se pode ver, por exemplo, no poema V de «O Guardador de Rebanhos», o poeta não é capaz de dispensar nem o pensamento, nem o raciocínio, nem a inteligência, para nos convencer de que para eleapenas sensaçõesEu não tenho filosofia: tenho sentidos»). O que poderemos concluir é que o poeta, ao negar a metafísica, está a construir uma anti-metafísica. 

(António Afonso Borregana, Fernando Pessoa e Heterónimos, Lisboa, Texto Editora, 1995, pp. 63-64)

 

 

Texto 6 

A temporalidade psíquica de Caeiro é estática: não recorda, não faz planos, nunca constrói - passa e cada instante é feito de uma duração igual à dos relâmpagos, ou à das flores, ou à das árvores, ou à do sol. É sempre um tempo objectivo que coincide exactamente com a sucessão do curso normal dos dias, das noites e das estações e com a diferenciação dos estados atmosféricos ou da paisagem. Faz da Natureza uma verdade absoluta, realidade com que se deve identificar na sua passagem à materialização ou à circunstância temporal. Nela, «as cousas não têm significação: têm existência». []

Alberto Caeiro não poderia evocar um passado sob pena de se contradizer. Nem deveria falar de um futuro. Querendo viver no instante, não tinha o direito de desejar a vida na permanência entre os instantes. Mas, por muito cuidadosamente que arquitecte a sua filosofia, deixa de quando em vez transparecer a marca humana numa poesia de ideias abstractas e impossíveis: redigindo umas notas biográficas para aviso de quem o ler, liga-se, forçosamente, a todo o tempo que passou e que está a passar e tem pena de ter amado porque «sentir é estar distraído» do que lhe merecia a atenção inteira. Afinal, vem-lhe à memória um sentimento...

Em relação a um tempo futuro, encara-o de três modos. O futuro é uma repetição de presentes de que colhe a essencialidade. É também a certeza da morte que o deixa inalterável - «...o sentido de morrer não me move» - que o seu desejo é simples como o que o cerca

E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre.
E que o poente é belo e é bela a noite que fica... 

Nesta duração plena da sobrevivência da obra de arte, perde-se a própria subjectividade da experiência temporal, porque se chega à temporalidade independente da pessoa e, portanto, a um pseudo-tempo.

Tem ainda, em relação a essa morte, um sentido de sobrevivência que encontra paralelo, novamente, na natureza: 

Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles terão a sua beleza, se forem belos.

Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.
 

Ao pensar no futuro, como ao pensar no passado, está a destruir-se por suas próprias mãos porque nega o que afirma ser o fulcro da sua vida: a vivência da realidade no momento, o nascimento a cada minuto.

Mas não se destrói quando evoca ou quando antevê. Destrói-se também ao construir o objectivismo paradoxal do seu tempo despido de características, sem intimidade nem qualidade, tempo humanamente impossível de realizar. E é assim que a vivência do tempo-natureza em Caeiro vai desaguar no tempo-nada. 

(Maria da Glória Padrão, A Metáfora em Fernando Pessoa, Porto, Inova, 1973)

 

 

 assinatura de Alberto Caeiro, por Fernando Pessoa"Alberto Caeiro", por Lívio de Morais, 1998

 

 

Avalie os seus conhecimentos acerca do heterónimo pessoano Alberto Caeiro.
 

1. Ligue os segmentos frásicos das duas colunas. 
 

1. Com Alberto Caeiro,

a) serve de exemplo a Alberto Caeiro e a Ricardo Reis, adeptos da aurea mediocritas.

2. Caeiro é o chefe

b) de uma pequena companhia teatral que representa a sua peça no palco da poesia.

3. Para todos eles, incluindo o ortónimo,

c) que é vivido por Alberto Caeiro, ao privilegiar as sensações oferecidas pelos diversos órgãos sensoriais.

4. O poeta de "O Guardador de Rebanhos"

d) Pessoa quis criar um pólo de referência para as suas outras personagens.

5. Alberto Caeiro recusa o pensamento metafísico,

e) é autodidata, de vivência simples e concreta.

6. A simplicidade da vida rural

f) Caeiro foi o mestre.

7. O puro sensacionismo é aquele

g) aderindo espontaneamente às coisas, tais como são, gozando-as despreocupadamente.

8. O "mestre" vive

h) são versos de Caeiro que refletem a sua antimetafísica, afirmando o primado dos sentidos.

9. "Pensar incomoda como andar à chuva"e "Eu não tenho filosofia: tenho sentidos..."

i) afirmando que "pensar é não compreender".

 (in Das Palavras aos Actos. Ensino Secundário. 12º Ano,
Ana Maria Cardoso, Célia Fonseca, Maria José Peixoto, Vítor Oliveira, Porto, Edições Asa, 2005, p. 102)

 

 

Quadro de respostas

1.

 

2.

 

3.

 

4.

 

5.

 

6.

 

7.

 

8.

 

9.

 

 

 

2. Leia o poema “O meu olhar é nítido como um girassol”.
 

O meu olhar é nítido como um girassol
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isto muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras..
Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentido...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é
Mas porque a amo, e amo-a por isto,
Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe porque ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...
 

 

 

Complete os espaços do texto que se segue com as seguintes palavras: 

presente

antimetafísica

heterónimo

deambulismo

criança

paradoxo

racionalização

visão

antifilosofia

pensar

sensacionista

pensamento

novidade

sensacionismo

 

Releve o assunto do poema.

Para o poeta, observar e contemplar é a sua essência de vida, amando a natureza todos os dias de um novo modo, como uma _________________ o mundo: admirando a natureza como ela é sem _________________ O eu poético contempla, assim, a realidade empírica, conhecida através dos sentidos, especialmente a_________________

 

Caracterize o sujeito da enunciação.

O sujeito da enunciação é objectivista (“Creio no mundo como num malmequer / Porque o vejo”). E deixa-se atrair por tudo o que o rodeia (“O meu olhar é nítido como um girassol”), o que é comprovado pelo seu culto ao deambulismo (“Tenho o costume de andar pelas estradas”). O eu poético não é o ontem nem o amanhã, apenas se preocupa com o _________________. Sinto-me nascido a cada momento”). Para além disso, o sujeito lírico é _________________, pois vive de sensações (“tenho sentidos”) e ama a Natureza, não colocando questões sobre o amor que sente por ela, rejeitando qualquer tentativa de _________________ do real (“Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é / Mas porque a amo, e amo-a por isso,”).

 

Encontre, no poema, algumas das características temáticas recorrentes na poesia de Caeiro.

Em Alberto Caeiro a visão constitui a sensação que abre a porta para a aprendizagem constante. Este _________________ de Pessoa se preocupa em ver de forma objectiva e natural a realidade com a qual contacta a todo o momento. Assim, ele afirma que o seu olhar “é nítido como um girassol”, porque, tal como o girassol é atraído pelo sol, o seu olhar é atraído por tudo aquilo que o circunda. Passeando e observando o mundo, Caeiro é um cultor do _________________, fazendo dele unia das temáticas da sua poesia.

Alberto Caeiro compara-se a uma criança, pois, tal como ela, o mundo sem necessidade de explicações e também porque, para ele, o mundo é sempre uma _________________, por isso crê na “eterna novidade do mundo”. Como a criança, Caeiro não encontra utilidade no pensamento e acha que “o Mundo não se fez para pensarmos nele” e quepensar é não compreender”. Desta forma, a inocência e a _________________ são outras duas temáticas das suas composições poéticas.

Além disso, o _________________ constitui outro dos temas característicos da poesia de Caeiro. Este poeta apreende o mundo pelos sentidos, se interessando por aquilo que capta pelas sensações, dando especial importância ao acto de ver (“Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...”).

Em conclusão, a poesia de Caeiro não é mais do que a nomeação do Mundo, sendo este heterónimo de Pessoa o poeta da clareza total e da objectividade das sensações.

 

Associe a frase de Jacinto do Prado Coelho “Caeiro é um abstrator paradoxalmente inimigo de abstracções” a este poema.

Como podemos verificar através dos poemas de Caeiro, este condena o _________________ e prima pela apreensão imediata do real em detrimento da abstracção.

Contudo, Caeiro, para instituir a negação do pensamento, recorre ao discurso argumentativo, o que mostra que, para além de transmitir sensações, reflecte sobre elas. De facto, este heterónimo é dotado de extrema inteligência, apresentando-se como um filósofo da _________________ pelo que toda a natureza poética da sua obra é de “espécie complicada”.

Em suma, a poesia de Caeiro assenta num _________________ no qual ele usa a abstracção para poder criticá-la.

 

 

3. Recorde todo o estudo que fez dos textos de Fernando Pessoa ortónimo e do heterónimo Alberto Caeiro.

Redija um texto expositivo-argumentativo que obedeça ao seguinte plano:

Introdução: a necessidade de Fernando Pessoa criar este heterónimo antimetafísico.

Desenvolvimento: aspetos que os aproximam e os separam.

Conclusão: fragmentação do “eu”. 

(in Das Palavras aos Actos. Ensino Secundário. 12º Ano
Ana Maria Cardoso, Célia Fonseca, Maria José Peixoto, Vítor Oliveira, Porto, Edições Asa, 2005, p. 79)

 

4. Ficha de aferição de leitura relativa ao heterónimo pessoano Alberto Caeiro. Aqui.

 

 

*

 

 

A heteronímia pessoana

Os conceitos de pseudónimo e heterónimo

Explicações possíveis da heteronímia

Exegese em Pessoa: o drama em gente

O caso clínico de Fernando Pessoa

Significação dos heterónimos

Verifique os seus conhecimentos relativamente à criação heteronímica pessoana.

Sabe identificar as pessoas de Pessoa? 

 

Heterónimos

Ricardo Reis – o neopaganismo; o epicurismo e o estoicismo.

Álvaro de Campos – a vanguarda e o sensacionismo; a abulia e o tédio.

Bernardo Soares – semi-heterónimo.

 

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José Carreiro, Lusofonia < http://lusofonia.com.sapo.pt/literatura_portuguesa/FP_AlbertoCaeiro.htm > 2011-12-16

 

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