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  José Carreiro
 
aguiarcarreiro@gmail.com

 

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LITERATURA ORAL TRADICIONAL

 

 

Índice

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Literatura erudita vs literatura oral tradicional

Literatura oral tradicional
A recolha
Géneros da literatura popular

O conto popular
  O narrador na tradição oral africana
  O espaço e o tempo de contar
  A linguagem do conto
  Transmissão e difusão do conto popular
  Tipologias do conto popular, características da lenda
  As funções do conto
  A passagem da infância à idade adulta
  A estrutura dos contos: funções das personagens
  Arquitectura do conto popular
  Prática de contar

Cancioneiro popular português
Análise da cantiga As meninas todas três Marias
Antologia

Romanceiro popular português
Situação e caracterização do romanceiro popular português
Texto, estrutura e discurso do romance tradicional
Origens do romanceiro
Critérios de classificação dos romances tradicionais
Colectores e amantes do romanceiro

Antologia mínima de literatura oral tradicional africana e timorense

 

 

 

LITERATURA ERUDITA VS LITERATURA ORAL TRADICIONAL

 

1. Circuitos de Comunicação

 A literatura erudita apresenta-se sempre sob a forma de textos escritos, enquanto a literatura tradicional que nos interessa se manifesta oralmente, quer ao nível da produção, quer ao nível da transmissão.

 1.1. A oposição escrita/oralidade suscita uma primeira reflexão que diz respeito à natureza da expressão em causa. A palavra inscreve-se no tempo e a escrita no espaço, o que deixa supor que a primeira é muito mais efémera e fugaz do que a segunda. O que é escrito pode-se reler, e nós temos tendência a considerar que é através dos manuscritos ou dos livros que a memória dos homens e de uma cultura se constitui e se mantém. Mas, na realidade, a escrita não é senão um meio de que nos servimos para guardar o nosso património cultural. A palavra pode igualmente assegurar a transmissão e a sobrevivência de um capital cultural, e a herança transmitida oralmente pode rivalizar em termos de perenidade com as obras dos grandes autores. Se se prevê que estas ultrapassem as barreiras do tempo e as fronteiras geográficas, pelo seu valor estético e pela dimensão universal da sua problemática, não é menos verdade que a literatura oral, apesar da ausência de um suporte material de fixação, persiste igualmente no tempo e consegue estilhaçar as fronteiras geográficas — basta lembrar aqui a migração de motivos de uma área geocultural para outra e a existência de versões muito semelhantes de um mesmo conto-tipo em regiões muito distantes. Poder-se-ia mesmo dizer que a literatura oral parece actualizar por toda a parte uma espécie de fundo arquétipo universal, sobretudo na sua dimensão mítica. [...]

Com efeito, a literatura oral põe em jogo os códigos paraverbais e extraverbais que a caracterizam. O código musical, por exemplo, mostra-se importante no campo da poesia oral, que é frequentemente cantada durante os momentos de trabalho comunitário com ritmo e cadência; o código quinésico, que regula os movimentos corporais, pode funcionar enquanto complemento dos signos verbais quando alguém toma a palavra para contar uma história ou lançar uma adivinha; o código proxémico, que regula a estrutura significante do espaço humano, é igualmente pertinente para dar conta de certas práticas ritualizadas da literatura oral; por fim, o código paralinguístico, ligado à entoação, à qualidade da voz, ao riso, à ênfase, desempenha um papel decisivo na constituição de todos os textos da literatura oral. O canal utilizado determina ou condiciona o tipo de comunicação instaurada e as possibilidades de interacção entre o código linguístico e os códigos paralelos.

 1.2. Analisemos agora os pólos do circuito de comunicação, isto é, o emissor e o receptor. Na literatura erudita, o emissor é o escritor que programa e controla a produção dos seus textos. Responsável e agente da enunciação literária, o escritor é um indivíduo empírico historicamente situado. Podemos sempre identificá-lo e nomeá-lo, desenhar o seu «perfil» socialmente modelado.

O estatuto do emissor da literatura oral mostra-se mais complexo. Esta literatura, o sublinhámos, engloba todos os discursos anónimos, transmitidos oralmente ao longo do tempo, que fazem parte de um património cultural colectivo. É a comunidade que se encarrega da transmissão desse património, pela voz de um conjunto indefinido de sujeitos individuais.

Os «esquemas» [...] passam de intérprete para intérprete e sofrem, no acto de contar, concretizações particulares, condicionadas ao mesmo tempo pelo contexto social e situacional e pela imaginação criadora do sujeito que actua. Cada contador dispõe de uma margem relativa de liberdade na actualização da tradição. Pode introduzir inovações pontuais que enriquecem a tradição sem a alterar substancialmente: as várias versões de um mesmo conto-tipo atestam esta liberdade relativa da instância de emissão. [...]

Em síntese, diremos que o texto literário consagrado é sempre atribuído a um autor determinado (aliás é interessante notar que o escritor se torna autor quando entra no circuito de trocas próprio da instituição literária). Para os textos da literatura oral, podemos sempre postular a existência de uma criação individual perdida num ponto indeterminado de um passado longínquo mas, de um ponto de vista objectivo, é a reprodução colectiva que lhes promove literalmente a existência, que os faz subsistir. O sujeito anónimo que está na origem destes textos tradicionais multiplica-se numa infinidade de sujeitos-emissores individuais quando nos colocamos no terreno do desempenho.

 1.3. Vejamos agora o pólo da recepção. No caso da literatura consagrada, o receptor identifica-se com o leitor. Este confronta-se com uma obra objectivada — quase sempre sob a forma de livroque pode descodificar em ritmos muito diferenciados. [...]

Completamente diferente é o estatuto do narrador e o tipo de comunicação na literatura oral. As instâncias de emissão e de recepção estão in praesentia, a comunicação é imediata e próxima. Existe mesmo uma reversibilidade possível entre os dois pólos do circuito: o receptor pode tornar-se em qualquer momento o emissor, e pode, no limite, condicionar o desempenho do contador com as suas intervenções, questões, interpelações, etc. [...]

Os traços de ficcionalidade são bem perceptíveis na maioria dos textos da literatura oral: são as fórmulas de recitação, os protocolos convencionais de apresentação e de conclusão que nos situam imediatamente num mundo imaginário. O «Era uma vez...» dos contos é uma fórmula que nos introduz exactamente no tempo-espaço míticos do discurso.

Ana Cristina Macário Lopes, Analyse Sémiotique de Contes Traditionnels Portugais,
Coimbra, Instituto Nacional de Investigação Científica, 1987, pp. 16-20.)