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    Literatura Brasileira

 

Índice    (para consulta, clique nas hiperligações abaixo indicadas)

 

I.

História da Literatura Brasileira em versos

História da Literatura Brasileira - tábua de matérias

II. A condição colonial da literatura brasileira

Leitura metódica da Carta de Pero Vaz de Caminha:
        Excerto da
Carta

       
Orientações de leitura

III. A busca de nacionalização da literatura: o caso do romantismo brasileiro

Leitura metódica de textos do romantismo brasileiro:
       Gonçalves Dias: "
Canção do Exílio" e "Marabá"

IV. Maturidade e originalidade da literatura novecentista brasileira:

O processo da modernidade
    Pré-modernismo
    Semana de arte moderna
    Características gerais do modernismo
    1ª fase do modernismo
    2ª fase do modernismo
    Pós-modernismo
    Produção contemporânea

Estudo de autores modernistas:   
    Jorge Amado (Os velhos marinheiros)
    Guimarães Rosa (O burrinho pedrês)

JOSÉ CARREIRO

 

  HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA EM VERSOS
 

Para a elaboração desta síntese, Ivaldo Nóbrega, em 1988, utilizou a sextilha como forma poética, modalidade composta de seis versos heptassílabos, rimando os versos pares entre si, sendo bastante usada pelos poetas populares, tanto na cantoria oral quanto nos folhetos de cordel.

São cento e quarenta e nove sextilhas, nas quais poderá encontrar informações valiosas, que o ajudarão a conhecer melhor as manifestações literárias brasileiras.                           

Ao aluno que estuda
E se dedica à leitura
Que se preocupa e pesquisa
Os aspectos da cultura,
Trago em versos um resumo
De nossa literatura.

Vou mergulhar nas raízes,
Sendo claro e objetivo,
Enfocando aqueles textos

HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRATÁBUA DE MATÉRIAS

 

1. A literatura no período colonial

1.1. Primeiras visões do Brasil.

A revelação do Novo Mundo / a literatura de viagens:

  • Carta ao Rei dom Manuel, de Pero Vaz de Caminha;
  • o Tratado da Terra do Brasil e a História da Província de Santa Cruz a Que Vulgarmente Chamamos Brasil, de Pero Magalhães Gândavo;
  • o Tratado Descritivo do Brasil, de Gabriel Soares de Sousa.

A literatura de catequese:

  • o Diálogo sobre a Conversão dos Gentios, composto entre 1556 e 1558 pelo padre Manoel da Nóbrega;
  • o teatro e os poemas do padre José de Anchieta.

1.2.  Barroco

  • Pe António Vieira: o engenhoso pregador português.
  • Bento Teixeira, Prosopopéia, de 1601, marco inicial do Barroco no Brasil.
  • Gregório de Mattos: o primeiro grande poeta brasileiro.

1.3. Arcadismo (Neoclassicismo)

Dois momentos: o poético e o ideológico.

  • Cláudio Manuel da Costa: os sonetos amorosos marcam o início do Arcadismo no Brasil.
  • Tomás Antônio Gonzaga: o pastor apaixonado.
  • Basílio da Gama, Uraguai (poema épico de louvor a Marquês de Pombal e sobre o heroísmo indígena).
  • Silva Alvarenga: a sátira política em o Desertor.
  • Alvarenga Peixoto e o nativismo sentimental.
  • Santa Rita Durão, Caramuru - Poema Épico do Descobrimento da Bahia.

2. Romantismo

2.1. Primeira geração: literatura e nacionalidade.

A poesia indianista da primeira geração:

  • Gonçalves de Magalhães, introdutor do Romantismo com Suspiros Poéticos e Saudades.
  • Gonçalves Dias: os índios, a pátria e o amor.

2.2. Segunda geração: idealização, paixão e morte, uma poesia arrebatada.

  • Casimiro de Abreu: versos doces e meigos.
  • Álvares de Azevedo: ironia, amor e morte.
  • Fagundes Varela: uma poesia de transição.

2.3. Terceira geração: a poesia social.

O Condoreirismo: a poesia clama por liberdade.

  • Castro Alves, um poeta de causas: uma, social e moral, a da abolição da escravatura; outra, a república, aspiração política dos liberais mais exaltados.
  • Sousândrade: a identidade americana.

2.4. O romance urbano: retrato da vida na corte.

  • O amor segundo Joaquim Manuel de Macedo.
  • José de Alencar: um crítico dos costumes.
  • Manuel Antônio de Almeida: a estética da malandragem.

2.5. O romance indianista.

  • A prosa indianista de José de Alencar.

2.6. O romance regionalista. O teatro romântico.

  • Alencar e os heróis dos sertões brasileiros.
  • Visconde de Taunay e o patriarcado do interior.
  • Franklin Távora: cantor do Norte.
  • Bernardo Guimarães: o folhetim regionalista.
  • O teatro romântico: Martins Pena e a comédia de costumes.

3. Realismo e Naturalismo.

3.1. Realismo: a sociedade no centro da obra literária.

  • Machado de Assis: um céptico analisa a sociedade de um Brasil em crise.

3.2. Naturalismo: a aproximação entre literatura e ciência.

  • Aluísio Azevedo: o autor das “massas”.
  • Raul Pompeia: um caso particular de estilo híbrido.

4. As estéticas de fim de século.

4.1. Parnasianismo:  a “disciplina do bom gosto”.

  • Olavo Bilac, o poeta das estrelas.
  • Raimundo Correia: as imagens mais sugestivas.
  • Alberto de Oliveira: pujança da natureza fluminense e os encantos da mulher brasileira.

4.2. Simbolismo: o desconhecido supera o real.

  • Cruz e Sousa: a transfiguração da condição humana.
  • Alphonsus de Guimaraens: o místico mineiro.

5. O Modernismo

5.1. Pré-modernismo: autores em busca de um país.

O Brasil republicano: conflitos e contrastes.

  • Euclides da Cunha: narrador da guerra do fim do mundo.
  • Lima Barreto: a vida nos subúrbios cariocas.
  • Monteiro Lobato: a decadência do café.
  • Augusto dos Anjos: poeta de muitas faces.

5.2. Primeira geração modernista: ousadia e inovação (poesia do quotidiano).

Semana de Arte Moderna: três noites que fizeram história.

  • Oswald de Andrade: irreverência e crítica.
  • Mário de Andrade: a descoberta do Brasil brasileiro.
  • Manuel Bandeira: olhar terno para o quotidiano.
  • Alcântara Machado: os italianos em São Paulo.
  • Outros autores: Cassiano Ricardo (Martim Cererê); Guilherme de Almeida (A flor que foi um homem); Menotti del Picchia (Juca Mulato); Plínio Salgado (O cavaleiro de Itararé); Raul Bopp (Cobra Morato)

5.3. Segunda geração modernista: misticismo e consciência social (eu e o mundo)

A consolidação de uma estética.

  • Carlos Drummond de Andrade: poeta do finito e da matéria
  • Cecília Meireles: a vida efémera e transitória.
  • Vinícius de Moraes: o cantor do amor maior.
  • Murilo Mendes: o católico visionário.
  • Jorge de Lima: o católico engajado.

5.4. O romance de 1930: a consciência do subdesenvolvimento brasileiro.

A retomada de um olhar realista.

  • Graciliano Ramos: mestre das palavras secas.
  • José Lins do rego: lembranças de um menino de engenho.
  • Rachel de Queiroz: um olhar feminino para o sertão.
  • Jorge Amado: retrato da diversidade económica e cultural.
  • Erico Veríssimo: o intérprete dos gaúchos.
  • Dionélio Machado: as angústias do homem comum.

6. O pós-modernismo

6.1. A poesia participante da geração de 1945  e o Concretismo.

  • A poesia em busca de um caminho: a poesia “equilibrada e séria” de Lêdo Ivo, Péricles Eugênio da Silva Ramos, Geir Campos e Darcy Damasceno.
  • A “máquina” do poema: João Cabral de Melo Neto.
  • Poesia Concreta: Haroldo de Campos, Décio Pignatari e Augusto de Campos.
  • Poesia participante: Ferreira Gullar.
  • Poesia praxis: Mário Chamie.

6.2. A prosa pós-moderna: a reinvenção da narrativa.

  • Guimarães Rosa: o descobridor do sertão universal.
  • Clarice Lispector: a busca incansável da identidade.

6.3. A escrita contemporânea

Décadas de 60 e 70:

  • Os romances-reportagens: José Louzeiro.
  • Os romances que retratam a realidade do país: António Callado, Inácio Loyola Brandão e Ivan Ângelo.
  • Romances com linguagem apurada e força poética: Raduan Nassar.
  • Contos e romances de grande penetração psicológica: Lígia Fagundes Telles.
  • Do grotesco ao banal nos contos de Dalton Trevisan.
  • O romance memorialista de Pedro Nava (painel da cultura brasileira no século XX com os costumes familiares e sua cultura popular).
  • Geração mimeógrafo (final dos anos 70), uma poesia anárquica, satírica e coloquial: Ana Cristina César e Cacaso.

A partir das décadas de 80 e 90:

  • Romance inspirado nos aspectos políticos e sociais da vida nordestina e brasileira: João Ubaldo Ribeiro e J.C. Dantas.
  • Romance intimista: Milton Hatoum.
  • Rubem Fonseca disseca a motivação das suas personagens urbanas em histórias realistas e violentas.
  • Em João Gilberto Noll a sexualidade vem acompanhada de um clima pesado de delírio.
  • A nível da poesiagrande influência do concretismo em Paulo Leminski e Arnaldo Antunes e até mesmo em compositores da MPB como Caetano Veloso.
  • Poesia ligada à região do Pantanal: Manoel de Barros.
  • Outros poetas realizam trabalhos muito pessoais, como José Paulo Paes, Hilda Hilst, Nelson Ascher e Adélia Prado.

 

Adaptado de: História Concisa da Literatura Brasileira, Alfredo Bosi, Literatura Brasileiratempos, leitores e leituras, Mª Luiza M. Abaurre e Marcela Pontara; Wikipédia, a enciclopédia livre; http://www.leremcd.hpg.ig.com.br/historia.htm

A CONDIÇÃO COLONIAL DA LITERATURA BRASILEIRA

 

O problema das origens da nossa literatura não pode formular-se em termos de Europa, onde foi a maturação das grandes nações modernas que condicionou toda a história cultural, mas nos mesmos termos das outras literaturas americanas, isto é, a partir da afirmação de um complexo colonial de vida e de pensamento.

 A colônia é, de início, o objeto de uma cultura, o “outro” em relação à metrópole: em nosso caso, foi a terra a ser ocupada, o pau-brasil a ser explorado, a cana-de-açúcar a ser cultivada, o ouro a ser extraído; numa palavra, a matéria-prima a ser carreada para o mercado externo. A colônia só deixa de o ser quando passa a sujeito da sua história. Mas essa passagem fez-se no Brasil por um lento processo de aculturação do português e do negro à terra e às raças nativas; e fez-se com naturais crises e desequilíbrios. Acompanhar este processo na esfera de nossa consciência histórica é pontilhar o direito e o avesso do fenômeno nativista, complemento necessário de todo complexo colonial.

 Importa conhecer alguns dados desse complexo, pois foram ricos de conseqüências econômicas e culturais que transcenderam os limites cronológicos da fase colonial.

 Nos primeiros séculos, os ciclos de ocupação e de exploração formaram ilhas sociais (Bahia, Pernambuco, Minas, Rio de Janeiro, São Paulo), que deram à Colônia a fisionomia de um arquipélago cultural. E não só no facies geográfico: as ilhas devem ser vistas também na dimensão temporal, momentos sucessivos que foram do nosso passado desde o século XVI até a Independência.

 Assim, de um lado houve a dispersão do país em subsistemas regionais, até hoje relevantes para a história literária; de outro, a seqüência de influxos da Europa, responsável pelo paralelo que se estabeleceu entre os momentos de além-Atlântico e as esparsas manifestações literárias e artísticas do Brasil-Colônia: Barroco, Arcádia, Ilustração, Pré-Romantismo…

 Acresce que o paralelismo não podia ser rigoroso pela óbvia razão de estarem fora os centros primeiros de irradiação mental. De onde, certos descompassos que causariam espécie a um estudioso habituado às constelações da cultura européia: coexistem, por exemplo, com o barroco do ouro das igrejas mineiras e baianas a poesia arcádica e a ideologia dos ilustrados que dá cor doutrinária às revoltas nativistas do século XVIII. Códigos literários europeus mais mensagens ou conteúdos já coloniais conferem aos três primeiros séculos de nossa vida espiritual um caráter híbrido, de tal sorte que parece uma solução aceitável de compromisso chamá-lo luso-brasileiro, como o fez Antônio Soares Amora na História da Literatura Brasileira.

 Convém lembrar, por outro lado, que Portugal, perdendo a autonomia política entre 1580 e 1640, e decaindo verticalmente nos séculos XVII e XVIII, também passou para a categoria de nação periférica no contexto europeu; e a sua literatura, depois do climax da épica quinhentista, entrou a girar em torno de outras culturas: a Espanha do Barroco, a Itália da Arcádia, a França do Iluminismo. A situação afetou em cheio as incipientes letras coloniais que, já no limiar do século XVII, refletiriam correntes de gosto recebidas “de segunda mão”, O Brasil reduzia-se à condição de subcolônia.

 A rigor, só laivos de nativismo, pitoresco no século XVII e já reivindicatório no século seguinte, podem considerar-se o divisor  de águas entre um gongórico português e o baiano Botelho de Oliveira, ou entre um árcade coimbrão e um lírico mineiro. E é sempre necessário distinguir um nativismo estático, que se exaure na menção da paisagem, de um nativismo dinâmico, que integra o ambiente e o homem na fantasia poética (Basílio da Gama, Silva-Alvarenga, Sousa Caldas).

 O limite da consciência nativista é a ideologia dos inconfidentes de Minas, do Rio de Janeiro, da Bahia e do Recife. Mas, ainda nessas pontas-de-lança da dialética entre Metrópole e Colônia, a última pediu de empréstimo à França as formas de pensar burguesas e liberais para interpretar a sua própria realidade. De qualquer modo, a busca de fontes ideológicas não-portuguesas ou não-ibéricas, em geral, já era uma ruptura consciente com o passado e um caminho para modos de assimilação mais dinâmicos, e propriamente brasileiros, da cultura européia, como se deu no período romântico.

 Resta, porém, o dado preliminar de um processo colonial, que se desenvolveu nos três primeiros séculos da vida brasileira e condicionou, como nenhum outro, a totalidade de nossas reações de ordem intelectual: e se se prescindir da sua análise, creio que não poderá ser compreendido na sua inteira dinâmica nem o próprio fenômeno da mestiçagem, núcleo do nosso mais fecundo ensaísmo social de Sílvio Romero a Euclides, de Oliveira Viana a Gilberto Freyre.

  

Textos de informação

 Os primeiros escritos da nossa vida documentam precisamente a instauração do processo: são informações que viajantes e missionários europeus colheram sobre a natureza e o homem brasileiro. Enquanto informação, não pertencem à categoria do literário, mas à pura crônica histórica e, por isso, há quem as omita por escrúpulo estético (José Veríssimo, por exemplo, na sua História da Literatura Brasileira). No entanto, a pré-história das nossas letras interessa como reflexo da visão do mundo e da linguagem que nos legaram os primeiros observadores do país. É graças a essas tomadas diretas da paisagem, do índio e dos grupos sociais nascentes, que captamos as condições primitivas de uma cultura que só mais tarde poderia contar com o fenômeno da palavra-arte.

 E não é só como testemunhos do tempo que valem tais documentos: também como sugestões temáticas e formais. Em mais de um momento a  inteligência brasileira, reagindo contra certos processos agudos de europeização, procurou nas raízes da terra e do nativo imagens para se afirmar em face do estrangeiro: então, os cronistas voltaram a ser lidos, e até glosados, tanto por um Alencar romântico e saudosista como por um Mário de Andrade ou um Oswald de Andrade modernistas. Daí o interesse obliquamente estético da “literatura” de informação.

  

A carta de Caminha

 Dos textos de origem portuguesa merece destaque a Carta de Pero Vaz de Caminha a el-rei D. Manuel, referindo o descobrimento de uma nova terra e as primeiras impressões da natureza e do aborígene.

 O que para a nossa história significou uma autêntica certidão de nascimento, a Carta de Caminha a D. Manuel, dando notícia da terra achada, insere-se em um gênero copiosamente representado durante o século XV em Portugal e Espanha: a literatura de viagens. Espírito observador, ingenuidade (no sentido de um realismo sem pregas) e uma transparente ideologia mercantilista batizada pelo zelo missionário de uma cristandade ainda medieval: eis os caracteres que saltam à primeira leitura da Carta e dão sua medida como documento histórico. Descrevendo os índios: 

A feição deles é serem pardos maneiras d’avermelhados de bons rostros e bons narizes bem feitos. Andam nus sem nenhuma cobertura, nem estimam nenhuma cousa cobrir nem mostrar suas vergonhas e estão acerca disso com tanta inocência como têm de mostra o rosto.

 Em relevo, a postura solene de Cabral: 

O capitão quando eles vieram estava assentado em uma cadeira e uma alcatifa aos pés por estrado e bem vestido com um colar d’ouro mui grande ao pescoço. 

Atenuando a impressão de selvajaria que certas descrições poderiam dar: 

Eles porém contudo andam muito bem curados e muito limpos e naquilo me parece ainda mais que são como aves ou alimárias monteses que lhes faz o ar melhor pena e melhor cabelo que as mansas, porque os corpos seus são tão limpos e tão gordos e tão fremosos que não pode mais ser. 

A conclusão é edificante: 

De ponta a ponta é toda praia… muito chã e muito fremosa. […] Nela até agora não pudemos saber que haja ouro nem prata… porém a terra em si é de muito bons ares assim frios e temperados como os de Entre Doiro-e-Minho. Águas são muitas e infindas. E em tal maneira é graciosa que querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem, porém o melhor fruto que nela se pode fazer me parece que será salvar esta gente e esta deve ser a principal semente que vossa alteza em ela deve lançar. 

(Adaptado de: História Concisa da Literatura Brasileira, Alfredo Bosi, São Paulo, Editora Cultrix, 1995)

 

 

LEITURA METÓDICA DE TEXTO HISTÓRICO-LITERÁRIO

 

A CARTA

 

Senhor:

Posto que o capitão desta vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que nesta navegação agora se achou, não deixarei também de dar minha conta disso a Vossa Alteza, o melhor que eu puder, ainda quepara o bem contar e falar— o saiba fazer pior que todos.

Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e creia bem por certo que, para alindar nem afear, não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu.

Da marinhagem[1] e singraduras[2] do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza, porque o não saberei fazer, e os pilotos devem ter esse cuidado. Portanto, Senhor, do que hei-de falar começo e digo:

A partida de Belém, como Vossa Alteza sabe, foi, segunda-feira, 9 de Março. Sábado, 14 do dito mês, entre as oito e as nove horas, nos achámos entre as Canárias, mais perto da Grã-Canária, onde andámos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às dez horas, pouco mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo verde, ou melhor, da Ilha de São Nicolau, segundo o dito Pêro Escobar, piloto.

Na noite seguinte, segunda-feira, ao amanhecer, se perdeu da frota Vasco Ataíde com sua nau, sem haver tempo forte nem contrário para que tal acontecesse. Fez o capitão suas diligências para o achar, a uma e outra parte, mas não apareceu mais! E assim seguimos nosso caminho, por este mar, de longo[3], até que, terça-feira das Oitavas de Páscoa[4], que foram 21 dias de Abril, estando da dita ilha obra de seiscentas e sessenta ou seiscentas e setenta léguas, segundo os pilotos diziam, topámos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho[5], assim como outras a que dão o nome de rabo-de-asno[6]. E, quarta-feira seguinte, pela manhã topámos aves e que chamam fura-buxos[7].

Neste dia, a horas de véspera[8], houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas a sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome — o MONTE PASCOAL — e à terra — a TERRA DA VERA CRUZ.

Mandou lançar a prumo. Acharam vinte e cinco braças[9], e, ao sol-posto, obra de seis léguas de terra, surgimos âncoras[10], em dezanove braças — ancoragem limpa. Ali permanecemos toda aquela noite. E à quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos direitos à terra, indo os navios pequenos diante, por dezassete, dezasseis, quinze, catorze, treze, doze, dez e nove braças, até meia légua da terra, onde todos lançámos âncoras em frente à boca de um rio. E chegaríamos a esta ancoragem às dez horas pouco mais ou menos.

Dali avistámos homens que andavam pela praia, obra de sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos por chegarem primeiro.

Então lançámos fora os batéis e esquifes[11]; e vieram logo todos os capitães das naus a esta nau do capitão-mor, onde falaram entre si. E o capitão-mor mandou em terra no batel a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que[12] ele começou de ir para , acudiram pela praia homens, quando aos dois, quando aos três, de maneira que, ao chegar o batel, à boca do rio, ali havia dezoito ou vinte homens.

Eram pardos[13], todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas[14]. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijamente[15] sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram.

Ali não pôde deles haver fala. nem entendimento de proveito, por o mar quebrar na costa. Deu-lhes somente um barrete vermelho e uma carapuça[16] de linho que levava na cabeça e um sombreiro[17] preto. Um deles deu-lhe um sombreiro de penas de ave compridas, com uma copazinha pequena de penas vermelhas e pardas como de papagaio; e outro deu-lhe um ramal[18] grande de continhas brancas, miúdas, que querem parecer de aljaveira[19]. as quais peças creio que o capitão manda a Vossa Alteza, e com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do mar.

Na noite seguinte ventou tanto sueste com chuvaceiros que fez caçar[20] as naus, e especialmente a capitânia. E sexta pela manhã, às oito horas, pouco mais ou menos nos, por conselho dos pilotos, mandou o capitão levantar as âncoras e fazer vela; e fomos ao longo da costa, com os batéis e esquifes amarrados à popa na direcção do norte, para ver se achávamos alguma abrigada[21] e bom pouso, onde nos demorássemos, para tomar água e lenha. Não que nos minguasse, mas por aqui nos acertarmos[22]

Quando fizemos vela, estariam na praia assentados perto do rio obra de sessenta ou setenta homens que se haviam juntado aos poucos e poucos. Fomos de longo[23], e mandou o capitão aos navios pequenos que seguissem mais chegados à terra e, se achassem pouso seguro para as naus, que amainassem.

E, velejando nós pela costa, acharam os ditos navios pequenos, obra de dez léguas do sítio donde tínhamos levantado ferro, um recife[24] com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram[25]. As naus arribaram sobre eles; e um pouco antes do sol-posto amainaram também, obra de uma légua do recife, e ancoraram em onze braças.

E estando Afonso Lopes, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos, por mandado do capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meteu-se logo no esquife a sondar